Sem definição clara no Parlamento, Itália caminha para novas eleições

Impasse. Triunfo da coalizão de Berlusconi no Senado e votação surpreendente do partido do comediante Beppe Grillo impedem que o favorito Pier Luigi Bersani forme governo e país deve convocar outra votação; Europa teme reação dos mercados à incerteza

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / ROMA, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 02h11

A rejeição em massa do eleitorado italiano às políticas de austeridade do primeiro-ministro Mario Monti ameaçam abrir uma crise política na Itália. Segundo resultados preliminares das eleições gerais dos últimos dois dias, o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, teve a maioria dos votos, mas não terá cadeiras suficientes no Parlamento para formar um governo. Em Roma, líderes admitem convocar novas eleições.

A grande surpresa foi o retorno eleitoral do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que, com 9 milhões de votos, tornou-se a segunda força política do país, pouco mais de um ano depois de renunciar em meio à crise econômica e a denúncias de corrupção.

Os italianos foram às urnas em meio à pior recessão em décadas e com um índice de desemprego recorde, reflexos da estratégia de Monti - que sucedeu a Berlusconi - de implementar os ajustes mais duros da história recente da Itália

A chanceler alemã, Angela Merkel, e outros líderes europeus temem a repetição da paralisia que foi criada na Grécia após as eleições, há um ano. Mas, desta vez, a crise é na terceira maior economia da zona do euro.

A eleição foi marcada, acima de tudo, por uma derrota da agenda da UE. Mais de dois terços dos eleitores escolheram partidos contrários ao receituário ditado por Bruxelas e Berlim. "Vimos um eleitorado em rebelião contra a austeridade", disse Enrico Letta, vice-presidente do PD.

Incerteza. Resultados parciais apontaram que o partido de Bersani conseguiu 29,6% de votos na Câmara de Deputados e 31,6% no Senado, o que não foi suficiente para anunciar a vitória. O partido apenas confirmou que, em razão de sua liderança, será o primeiro a propor uma alternativa de governo à presidência italiana. Seus líderes, porém, admitiam que a tarefa será muito difícil e precisará da mediação do presidente Giorgio Napolitano para evitar o caos.

Em segundo lugar apareceu Berlusconi. Tido como morto por muitos, o magnata voltou ontem para mostrar que ainda tem a capacidade de influenciar a direção do país. No Senado, a aliança de Berlusconi somou 30,6% e obteve 29% na Câmara de Deputados.

Em razão da lei eleitoral italiana, que dá a certas regiões mais cadeiras no Senado, a coalizão de Berlusconi obteve 114 senadores contra 113 do PD. "Berlusconi já colocou a Itália à beira de um abismo e agora está fazendo de novo", disse Stefano Fassina, um dos principais nomes do Partido Democrático. "Se essa situação for confirmada, teremos de realizar novas eleições. Estamos numa situação de total incapacidade de governar."

Na sede do partido de Bersani, à medida que os resultados positivos de Berlusconi eram anunciados e vitórias eram registradas em locais como a Lombardia, o clima era de incompreensão. "É inacreditável", afirmou ao Estado o senador eleito Corradino Mineo.

A terceira colocação também foi marcada pela surpresa. O comediante e populista Beppe Grillo, partidário da saída da Itália do euro, obteve 23% dos votos no Senado e 25,5% na Câmara - o maior partido da Casa.

Para analistas, Grillo conseguiu reunir votos de pessoas que queriam protestar contra a austeridade, mas se recusavam a votar em partidos tradicionais, um fenômeno cada vez mais presente nas eleições europeias durante a crise.

O maior derrotado foi Monti, que ficou com 10% dos votos na Câmara e não disfarçava a preocupação com o futuro do país. "Cada um, agora, precisa assumir sua responsabilidade e não podemos deixar que os esforços feitos pelos italianos sejam desperdiçados", alertou, numa referência ao risco de uma turbulência financeira que jogue o país de volta ao caos, depois de meses de cortes de salários, demissões e austeridade.

No entanto, a derrota de Monti foi também a de Bersani. O líder do PD, apesar de propor medidas para incentivar a economia italiana e abandonar, em parte, o modelo de austeridade, esperava um bom resultado do primeiro-ministro para compor uma aliança.

Para Mineo, a única solução para evitar o caos é uma aliança entre Bersani e Grillo. "Isso era algo impensável 24 horas atrás. Mas vamos ter de abrir um diálogo com eles. Essa será a única forma de administrar o caos", disse. Contudo, os mais céticos já falavam abertamente na necessidade de uma nova eleição, já que Bersani e Grillo dificilmente entrariam em acordo.

O clima de incerteza deixou a Bolsa de Valores, analistas e políticos desorientados. No início da tarde, a previsão de uma vitória de Bersani fez a Bolsa de Milão subir 4%. No entanto, apenas 30 minutos depois, terminou em alta de 0,73%. Para hoje, todos já se preparam para um colapso dos mercados. Ontem, o euro estava em seu nível mais baixo em seis semanas. "Os mercados enfrentarão o pior dos mundos na Itália", declarou Nicholas Spiro, da Spiro Sovereign Strategy.

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