Sem desculpa para Trump

Everett Alvarez às vezes consegue ficar dias sem pensar no inferno que viveu por nove anos como prisioneiro de Guerra no Vietnã, um dos mais longos cativeiro da história militar dos EUA. "Estou ocupado demais", explica o ex-comandante da Marinha, hoje com 77 anos, diretor de sua empresa de TI de consultoria de administração, que vale milhões de dólares, na Virginia do Norte. Mas, no mês passado, foi impossível para ele evitar as lembranças, graças a Donald Trump. Pré-candidato à indicação presidencial republicana, e líder nas pesquisas nacionais, Trump atacou o antigo camarada de Alvarez, o senador John McCain (de Arizona).

PETULA DVORAK - THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2015 | 02h02

McCain, afirmou Trump, "não é um herói de guerra", pois foi capturado e mantido como prisioneiro de guerra. Alvarez diz que ficou "boquiaberto"ao ouvir os comentários de Trump, que por várias vezes evitou a convocação durante a Guerra do Vietnã. Como é possível manifestar publicamente ódio pelos veteranos de guerra? É um total retrocesso a um momento histórico diferente. "As pessoas têm liberdade de dizer o que querem", diz Alvarez. "Mas hoje?"

Ocorre que, atualmente, nos EUA, os soldados são tratados com muito mais respeito e reconhecimento do que durante a Guerra do Vietnã. "Naquela época, quando voltavam para casa, os rapazes que haviam ido para lá, como eu, eram considerados vilões, assassinos de crianças, os boinas pretas", lembra Alvarez, que foi libertado em 1973 e recebeu várias condecorações. "Após o caso Watergate, os americanos olharam para trás e começaram a sentir remorso", diz. Com exceção de Trump, que não pediu desculpas a McCain.

Alvarez é um homem surpreendente. Ele é neto - está preparado para ouvir esta, Trump?- de imigrantes mexicanos e cresceu em Salinas, Califórnia, onde uma escola de segundo grau recebeu seu nome. Ele já estava preso no "Hanói Hilton" quando McCain foi derrubado e levado para a prisão norte-vietnamita. Ali, eles foram algemados e torturados ao mesmo tempo. Alvarez era o primeiro piloto americano abatido sobre o Golfo do Tonquim, em 1964. Passou 15 meses na solitária. Quase morreu de fome alimentando-se apenas de pássaros. Suas mãos, mesmo depois de várias cirurgias, continuam pouco firmes, pois naquela prisão ficavam constantemente amarradas. Durante este período, a irmã de Alvarez tornou-se uma ativista contra a guerra. Sua mulher se divorciou e casou novamente.

Embora ele tenha sido recebido calorosamente por alguns, depois da libertação, muitos americanos não foram tão generosos com os veteranos. "Os rapazes que voltavam da guerra precisavam tirar os uniformes, pois as pessoas cuspiam neles e zombavam", diz Alvarez, que casou de novo e mora em Potomac, Maryland. "E não receberam nenhuma ajuda do governo. A burocracia era impossível. Muitos dos jovens sofriam de distúrbios emocionais." Também parecia que os únicos colegas que eles tinham - os veteranos da 2.ª Guerra - tampouco estavam do seu lado. "Eles foram para lá, ganharam a grande guerra, e 25 ou 30 anos mais tarde, tornaram-se diretores de empresas, bem-sucedidos, então se aposentaram", disse Alvarez. "E viam os veteranos do Vietnã como jovens cheios de ressentimento."

Os EUA não estavam dispostos a tratar dos ex-combatentes daquela guerra mal falada. Segundo ele, a situação começou a mudar nos anos 80 e 90. "A partir da Guerra do Golfo, as pessoas passaram a reconhecer que o que fizemos com aqueles rapazes estava errado. Se você discorda da política, não pode culpar os meninos. Culpe os políticos, mas não culpe os combatentes pela guerra." O filho de Alvarez serviu por duas vezes no Iraque como médico da Marinha. Os 2,6 milhões de homens e mulheres que combateram no Iraque e no Afeganistão são homenageados em toda parte. Não que a vida dos veteranos do século 21 seja fácil. Numa pesquisa realizada pelo Washington Post e a Kaiser Family Foundation, no ano passado, a maioria disse que sua saúde estava bem pior em comparação com quando foram convocados. Cerca de 25% das mulheres que serviram nessas guerras disseram que foram estupradas durante o serviço militar. Mais de 50% dos entrevistados disseram que conheciam outros veteranos que tentaram o suicídio, e 20% afirmaram que conheciam um veterano que hoje mora na rua. Os que serviram no Iraque e no Afeganistão representam menos de 1% da população da nação. Mas pelo menos agora, o tom dos outros 99% dos americanos que não estão no Exército é de gratidão, mesmo que às vezes mesclada com um senso de culpa ou remorso.

Alvarez ouve inúmeros pedidos de desculpas aonde quer que vá: nas reuniões de negócios, em eventos sociais e em bailes para levantar fundos. Os profissionais confessam: "Eu fui um dos que protestaram contra a guerra", "Eu não servi o Exército", revelam. "Peço desculpa pela maneira como tratei vocês rapazes". Ele replicou: "É uma diferença de 180 graus em comparação àquela época". Ele não se importa. Ouve, e os perdoa como esperam. Há apenas uma pessoa que não merece absolvição. E vocês sabem quem é. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

 

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