Sem direitos humanos, não há espírito olímpico

Apesar de defender pressupostos que repudiam as violações, o COI organiza Olimpíadas em países como China e Rússia pensando no dinheiro

É DIRETOR DE INICIATIVAS GLOBAIS , DA HUMAN RIGHTS WATCH, MINKY, WORDEN, THE NEW YORK TIMES, É DIRETOR DE INICIATIVAS GLOBAIS , DA HUMAN RIGHTS WATCH, MINKY, WORDEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2013 | 02h07

Em 10 de setembro, membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) votarão para eleger um novo presidente pela primeira vez em 12 anos. A campanha para a presidência do COI é um evento discreto, que não atrai muita cobertura noticiosa - quantos dos seis candidatos você conseguiria identificar? No entanto, se você se importa com direitos humanos, há muita coisa em jogo.

Essa pode ser a última chance em muitos anos para reformar a atitude do COI perante governos repressivos que queiram ser sede dos Jogos Olímpicos. É imperativo que o comitê eleja um presidente disposto a liderar, e não a se submeter, nessa questão.

O mandato de 12 anos do atual presidente, Jacques Rogge, da Bélgica, será lembrado, em grande parte, pela contradição clamorosa entre a visão explícita do COI de seu elevado papel no mundo - tal como delineado nas regras e diretrizes de sua Carta - e o fato de que Rogge foi responsável por duas Olimpíadas que envolveram fartas violações de direitos humanos: os Jogos de 2008, em Pequim, e os Jogos de Inverno de 2014, em Sochi, na Rússia, que começarão em menos de seis meses.

Para receber os Jogos Olímpicos, governos e cidades prometem não só construir estádios novos e glamourosos, mas também defender os "princípios fundamentais das Olimpíadas": respeito à dignidade humana, à liberdade de imprensa e rejeição a "qualquer forma de discriminação". No entanto, o COI, sob o comando de Rogge, não aplicou suas próprias regras.

A Olimpíada de Pequim, que custou estimados US$ 40 bilhões, implicou uma série de violações de direitos, incluindo abusos a trabalhadores migrantes domésticos que estavam construindo a infraestrutura olímpica e uma dura repressão contra a mídia e a sociedade civil, com punições - entre elas, a prisão - de quem tentava protestar.

Agora, o COI está se preparando para realizar outra Olimpíada em um país-sede que quase parece estar zombando de organizadores e patrocinadores ao desprezar flagrantemente seu compromisso. De 2008 para cá, a Human Rights Watch documentou incontáveis abusos russos associados à preparação da Olimpíada.

Entre eles, intimidação e perseguição pelo governo de ativistas e jornalistas, abusos de trabalhadores migrantes do antigo bloco soviético que estão construindo as principais instalações olímpicas - incluindo o centro de mídia - e despejos forçados de famílias sem indenização. Alguns trabalhadores migrantes que tentaram reclamar foram detidos.

No ano passado, a Rússia também introduziu leis repressivas, qualificando algumas organizações sem fins lucrativos como "agentes estrangeiros". Com batidas policiais, ameaças e intimidação, a repressão tem sido a mais severa da era pós-soviética. Tem sido fundamental para essa campanha uma nova lei que afeta lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Todos esses esforços contradizem o ideal olímpico, tal como expresso em sua Carta, de "promover uma sociedade pacífica empenhada na preservação da dignidade humana".

As autoridades russas, aparentemente, estão contando com um novo silêncio do COI. A vergonha nesse caso é que o comitê pode usar - e tem usado - sua influência considerável para melhorar a conduta de nações que recebem os Jogos.

Países com governos repressivos, em geral, procuram ser a sede dos Jogos para melhorar sua reputação global - e somente o COI pode fazer a Olimpíada acontecer. Durante os preparativos para os Jogos de Verão de 1988, em Seul, os protestos contra a ditadura militar na Coreia do Sul se intensificaram, levando o COI a fazer uma forte pressão por uma transição democrática. Embora a pressão não tenha sido o único fator para provocar as mudanças, eleições democráticas foram realizadas, de fato, antes dos Jogos.

Durante quase duas décadas, o COI tentou assegurar que a Olimpíada fosse "verde" e, como resultado, ele agora monitora não somente questões como construções e melhorias de instalações esportivas, mas também seu impacto ambiental.

Em razão dos escândalos de corrupção que cercaram os Jogos de 1996, em Atlanta, e de Inverno de 2002, em Salt Lake City, o COI também veta a corrupção. Não há razão para o novo presidente do comitê não emitir uma ordem para avaliar rigidamente os registros de direitos humanos de países candidatos e monitorar os progressos do país-sede selecionado para melhorar esse registro.

A eleição do presidente do COI é determinada pelo comitê de 98 membros votantes - em geral, dirigentes de federações esportivas e membros de famílias reais. Somente 16 são mulheres, o que pode ajudar a explicar por que não há mulheres candidatas.

Até agora, somente um candidato, o financista Richard Carrión, de Porto Rico, condenou energicamente a legislação e o ambiente discriminatórios da Rússia. A eleição não foi planejada para provocar uma reforma séria. Portanto, seja quem for o eleito, não se poderá contar com que ele faça as mudanças necessárias por iniciativa própria, sem uma pressão de fora.

Nominalmente uma entidade sem fins lucrativos, o COI é uma empresa multibilionária que ganha dinheiro com direitos de franchising, televisão e patrocínio. Antes que um novo presidente seja escolhido, os patrocinadores corporativos que tornam possível a Olimpíada deveriam insistir para que ele aplique as regras do próprio comitê sobre direitos humanos.

A menos que patrocinadores e detentores de franquias, como NBC, Coca-Cola, GE, McDonald's e Visa queiram correr o risco de serem associados a uma Olimpíada oficialmente homofóbica, eles precisam recuperar a fala - antes que o próximo chefe do COI seja ungido. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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