Sem ditador visível, junta egípcia chega à eleição com mais poder do que nunca

Os militares egípcios parecem ter conseguido reverter em uma semana, a golpes de caneta, o que o movimento que derrubou o ditador Hosni Mubarak levou mais de um ano para conseguir. Na quinta-feira, a Justiça dissolveu o Parlamento e confirmou o último premiê da ditadura, Ahmed Shafiq, no segundo turno. Antes, na terça, o Exército havia reassumido poderes de polícia, ressuscitando parte do estado de emergência da era Mubarak.

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h03

Com as três medidas, o atual cenário no Cairo é, no mínimo, paradoxal: os militares formalmente nunca tiveram tanto poder na mão quanto no Egito pós-Primavera Árabe. E é assim, sem ditador, Parlamento ou Constituição, que eles estão conduzindo o segundo turno das eleições presidenciais, que teve início ontem e termina hoje.

A última etapa da eleição acabou polarizada entre representantes das duas principais forças políticas do Cairo. Shafiq, que foi comandante da Força Aérea - cargo ocupado por Mubarak nos anos 70 - e primeiro-ministro da ditadura, é a escolha dos militares e dos saudosistas do antigo regime. Seu rival, Mohamed Morsi, é o candidato da Irmandade Muçulmana, há 80 anos a maior força de oposição no Egito, e dos setores religiosos.

A dissolução do Congresso, na semana passada, foi um duro golpe contra a Irmandade. No fim do ano passado, a organização conseguiu levar quase 40% das cadeiras no Parlamento e, ao todo, a bancada islâmica passou a controlar cerca de 70% do Legislativo.

A Justiça de invalidar a eleição legislativa dividiu a Irmandade: enquanto líderes do grupo acusaram os militares de darem um "golpe", Morsi pediu que a decisão fosse respeitada.

Mas poucos entre os egípcios dispostos a retornar à Praça Tahrir parecem dar ouvidos ao candidato religioso. "A decisão da Justiça é mais uma prova de que os militares não vão deixar, voluntariamente, o poder", disse ao Estado Mohamed el-Dahshan, analista político e blogueiro egípcio. "Imediatamente após a decisão, Shafiq fez o que pareceu ser um 'discurso da vitória' no Cairo. Os militares farão o que for possível para colocá-lo no palácio presidencial."

Uma análise dos resultados do primeiro turno mostra um cenário curioso. Morsi e Shafiq receberam cada um cerca de 5 milhões de votos, em um universo de 50 milhões de eleitores egípcios. Em outras palavras: 80% do eleitorado do Egito não apoiou nem o candidatado dos militares nem o da Irmandade. Ambos, porém, foram beneficiados pela incapacidade do centro político - liberais, islâmicos moderados, esquerdistas, etc - de se unir em torno de um nome de consenso. Outro fator que ajudou os finalistas foi a alta taxa de abstenção no primeiro turno, de 47%.

Dahshan diz que - "com o nariz tapado" - votará em Morsi, assim como parte dos grupos laicos que iniciaram a revolta do ano passado. "Qualquer coisa é melhor que a volta dos militares com Shafiq", explica.

Os ultrarradicais salafistas, que se dividiram na primeira etapa, devem também apoiar o candidato religioso. Mas muitos grupos que foram à Praça Tahrir recusam o dilema entre militares e Irmandade, e prometem boicotar a votação.

Ator racional. John Calvert, historiador da Universidade Creighton (EUA) especializado nos movimentos islâmicos do Egito, aponta três cenários que podem desgastar o apoio aos irmãos muçulmanos e comprometer o futuro da organização.

"Se a Irmandade tentar impor à sociedade um modelo ultraconservador religioso, ou buscar um acordo de bastidores com os militares, ou, então, se ela acabar dividida por disputas internas, seu apelo diminuirá", prevê Calvert. "Mas a liderança do grupo é composta por atores políticos racionais. Eles tentarão levar a sociedade a uma direção ainda mais conservadora, especialmente em relação às questões de gênero. Isso terá por objetivo atrair os salafistas. Mas a Irmandade sabe que há limites para seus planos de implementar a sharia (lei islâmica)."

Acadêmicos e agências de risco apontam que uma eventual vitória de Shafiq deve levar a multidão de volta à Praça Tahrir. Mas as três medidas da semana passada - dissolução do Congresso, aval ao candidato dos generais e poder de polícia ao Exército - seriam uma aposta dos militares de que os manifestantes não serão capazes de parar o país novamente.

"(A junta militar que governa o Cairo) não se sente ameaçada por alguns milhares de manifestantes na Praça Tahrir e provavelmente duvida que as massas se juntarão a eles, como ocorreu em 25 de janeiro de 2011", escreveu Marc Lynch, cientista político da Universidade George Washington, na revista Foreign Policy. "Os militares aparentemente ganharam um round decisivo. Mas esse não é o fim do jogo. É só uma nova fase de uma 'transição' terrivelmente conduzida."

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