Sem efeito para Assange, asilo dá projeção a Correa

Presidente equatoriano afirma que direito de defesa do fundador do WikiLeaks foi violado e alerta contra invasão da embaixada

QUITO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h01

Em entrevista a rádios ligadas a seu governo e reproduzida por veículos de comunicação internacionais, o presidente do Equador, Rafael Correa, disse ontem que já esperava que a Grã-Bretanha negasse autorização para Julian Assange deixar o país quando decidiu conceder asilo ao fundador do WikiLeaks. Seu objetivo, disse, era evitar que Assange seja processado nos EUA por divulgar documentos secretos dos EUA. Analistas creem que Correa tem outros interesses.

A rádios equatorianas, o presidente disse ter tomado a decisão em razão do risco de Assange ser extraditado para a Suécia e, de lá, para os EUA, onde pode ser condenado à morte por divulgar segredos de Estado. "Demos asilo diplomático ao senhor Assange para ele não ser extraditado para um terceiro país, nunca para interromper as investigações."

A Suécia pediu à Grã-Bretanha a extradição do ativista australiano para investigar denúncias de crimes sexuais feitas contra ele por duas ex-colaboradoras do WikiLeaks. Assange diz que o pedido é um pretexto para extraditá-lo de Estocolmo para os EUA. Em 2010, o WikiLeaks divulgou mais de 500 mil documentos confidenciais do Departamento de Estado americano.

"Examinamos o contexto jurídico que ele enfrenta na Suécia, na Grã-Bretanha e, potencialmente, nos EUA", acrescentou Correa. Ainda de acordo com o líder equatoriano, o asilo não significa que ele concorde com o que Assange diga ou faça. Na opinião do presidente, é possível que o australiano tenha cometido um crime, mas seu direito de defesa deve ser respeitado.

Correa também criticou as ameaças britânicas de entrar na embaixada para prender Assange. Segundo ele, leis domésticas são sempre subordinadas ao direito internacional. Segundo a Convenção de Viena, as representações diplomáticas são invioláveis. "Eles se equivocaram no meio do caminho", disse. "Não sabem com que governo e com que povo estão lidando."

Protagonismo. De acordo com analistas equatorianos, Correa pretende aumentar sua projeção internacional com a concessão do asilo a Assange, além de contrapor críticas a seu tumultuado relacionamento com parte da imprensa equatoriana. "Correa sempre buscou em reuniões de cúpulas e em fóruns regionais projetar sua imagem internacionalmente. Desta vez não é diferente", avalia o analista Walter Spurrier, dono da consultoria Ecuador Analisys. "Agora, ele tenta fazer parte do polo que se opõe às nações poderosas, ao lado de países como Venezuela e Irã."

Correa se aproximou de Assange depois de ser entrevistado em um programa apresentado por ele na TV russa. Na ocasião, ele disse ter se identificado com o fundador do WikiLeaks, já que os dois seriam perseguidos - o equatoriano pela imprensa de seu país e o australiano pelos EUA. "Correa tem uma espécie de quixotismo com os perseguidos", disse Spurrier. "Na entrevista, ele chegou a brincar com Assange ao dizer: 'Bem-vindo ao grupo dos perseguidos.' Criaram uma empatia."

Limpeza. Outros especialistas veem na concessão do asilo a Assange uma tentativa de Correa de amenizar sua imagem internacional negativa depois do processo contra o jornal equatoriano El Universo, processado pelo presidente este ano em razão de um artigo de opinião no qual ele era chamado de "ditador".

"Não há dúvidas de que, de alguma maneira, o asilo limpa a má repercussão provocada pela relação ruim de Correa com a imprensa", afirmou José Lasso, da Universidade Andina. "Internamente, o governo pode obter benefícios com isso, mas internacionalmente podemos entrar em um conflito que não se sabe quais consequências terá."

Curiosamente, um dos donos do El Universo, Carlos Pérez, refugiou-se na Embaixada do Panamá em Quito para não ser preso. Saiu quando Correa retirou as queixas. Na avaliação de Spurrier, o apoio de Correa a Assange é contraditório. "Instituições de governo no país dificultam o acesso de jornalistas às informações.", disse. "O que Assange fez com os EUA, aqui, seria ilegal." / LUIZ RAATZ, COM EFE e AFP

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