Sem emprego, vítimas seguiam passos de irmãos que viviam fora

Dólares e euros enviados do exterior por imigrantes, movimentam o comércio de várias cidades da região

Marcelo Portela / SARDOÁ (MG), O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2010 | 00h00

Juliard Aires Fernandes, de 20 anos, e seu amigo Hermínio Cardoso dos Santos, de 24 - cujo corpo ainda não foi identificado, mas deve estar entre as vítimas do massacre de 72 imigrantes no México -, tentavam entrar nos EUA seguindo os passos de irmãos, outros parentes e dezenas de conhecidos que se arriscaram há anos na perigosa travessia clandestina para outro país, principalmente os EUA.

Juliard, por exemplo, tem os irmãos Márcio Aires Fernandes, de 30 anos, e Ronaldo Aires Fernandes, de 33, vivendo há oito anos nos EUA. Também tem uma tia, primos e primas morando ilegalmente no país. "Aqui não tem nenhuma condição para jovens trabalharem. Ele (Juliard) via o pessoal fora dando certo. Eu não podia segurá-lo aqui", desabafou o pai, Alírio Aires Fernandes, de 66 anos.

Já Ivanete Cardoso dos Santos, irmã de Hermínio, está desde o fim do ano passado na Itália, país para o qual voltou depois de já ter passado uma temporada lá alguns anos atrás. O pai, Antônio Ramos dos Santos, de 64 anos, observa que ela só voltou da primeira vez porque teve dificuldade com a língua, mas retornou à Itália em dezembro, após fazer um curso de italiano.

Ele conta que, por causa do exemplo da irmã, há sete anos Hermínio já planejava deixar o País para trabalhar. O rapaz tentou ir para Portugal, mas foi deportado ao tentar entrar na Espanha. Depois, seguiu para a Itália, mas após nove meses foi mandado pelas autoridades italianas de volta para o País, sem dinheiro nem mesmo para pegar um voo de São Paulo até a região onde mora. "Ele não conseguiu achar serviço. Teve de voltar pegando vários ônibus", relatou a mãe de Hermínio, Maria Cardoso dos Santos, de 58 anos.

As cidades de Sardoá e Santa Efigênia de Minas, assim como várias outras do Vale do Rio Doce e do leste de Minas, têm sua economia movida principalmente por dólares e euros enviados do exterior. Ambas têm aproximadamente 20% de seus cidadãos vivendo clandestinamente em outros países, além de pessoas que viveram fora e voltaram para construir casas e comércios nos municípios de origem.

"Dos 5.100 habitantes, cerca de 1.000 ou 1.100 moram no exterior. Aqui, não há uma família que não tenha pelo menos uma pessoa no exterior", ressaltou o prefeito de Sardoá, Edivaldo Carvalhais de Souza (PSDB). Ele afirma que os destinos preferidos são EUA, Portugal, Espanha e Itália, mas há pessoas da cidade vivendo até no Japão e Nova Zelândia, sempre enviando dinheiro para a família.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do município, em 2002, foi de R$ 12,7 milhões. De acordo com o prefeito, pelo menos 15% desse total vem de fora do País. "O dinheiro enviado para as família movimenta muito o comércio e a construção. E hoje todo mundo, incluindo o pessoal que vive na roça, tem DVD, celular rural, moto e carro", diz.

"Só que isso (o êxodo) também traz problemas. Tem muitas famílias desfeitas e há casos em que a pessoa compensa a ausência mandando presentes para os filhos. Tem menino de 14 anos na cidade com moto. Mas a família fica desestruturada", acrescentou o secretário de Assistência Social do município, Amilton Leite da Silva.

A prefeitura de Sardoá descartou ontem a possibilidade de duas moradoras da cidade também terem sido mortas por traficantes do cartel mexicano Los Zetas. As duas, que não estavam no mesmo grupo de Juliard e Hermínio, entraram em contato com parentes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.