Sem EUA, fracassa reunião sobre armas biológicas

A reunião sobre armas biológicas chegou ao final nesta sexta-feira, na sede da ONU em Genebra, sem qualquer resultado que garanta um controle sobre esse tipo de armamentos no mundo, mesmo depois de seis anos de negociações.O motivo do fracasso foi a recusa dos Estados Unidos em aceitar um acordo que verificasse a produção de armas biológicas.Desde o anúncio de Washington, há duas semanas, os demais países se dividiram e não conseguiram chegar a um conclusão de como criar um sistema para fiscalizar governos que estiverem desenvolvendo armas biológicas.A Convenção sobre Armas Biológicas de 1972 proíbe o uso desse tipo de armamento. O problema é que a convenção não prevê um mecanismo de verificação e o novo acordo criaria um organismo que seria responsável por realizar inspeções nos países.Washington, porém, alega que o protocolo não tem poder suficiente para identificar os violadores da convenção. Outro obstáculo para que a administração de George W. Bush aceitasse o acordo foi a recusa das indústrias farmacêuticas de serem "visitadas" por inspetores internacionais. "O acordo ameaça as informações confidenciais sobre nossa nação e nossos negócios", disse um diplomata norte-americano.Diante dessa realidade, países como a Alemanha e França preferiram não seguir a diante com um acordo que não incluísse os norte-americanos. "A posição de um país (os Estados Unidos), que possui quase metade de toda a indústria biológica do mundo, torna as negociações impossíveis", afirmou o embaixador da China, Hu Xiaodi.O desapontamento da comunidade internacional com a delegação norte-americana era explícita durante as reuniões. "Essa parece mais uma reunião sobre armamento que sobre desarmamento", afirmou um diplomata latino-americano. "A busca pela segurança de um país pelo preço da insegurança dos demais não beneficia a ninguém e vai contra o espírito do multilateralismo", criticou Xiaodi.Restou aos diplomatas tentarem garantir que o sistema multilateral fosse preservado e que ações unilaterais não fossem justificadas como forma de criar regras sobre armas biológicas, como parecem indicar os Estados Unidos. Mas, segundo o embaixador húngaro, Tibor Toth, que preside as negociações, uma decisão sobre o formato que essas negociações multilaterais irão tomar de agora em diante dependerá de uma decisão política por parte dos países, o que não ficou claro nos últimos debates entre as delegações. Até o começa da noite de hoje, as negociações indicavam que sequer haveria um texto descritivo sobre o que ocorreu nos últimos seis anos nas salas da ONU. Mais uma vez, os norte-americanos não aceitavam que fossem indicados como os responsáveis pelo desastre diplomático.O fracasso das negociações começa a ter repercussões até mesmo em outras instituições. Depois da recusa dos Estados Unidos em participarem do acordo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) coincidentemente adiou a publicação de um relatório sobre as consequências das armas biológicas para a saúde humana.Segundo um dos autores do relatório, o brasileiro Roque Monteleone Neto, a publicação teria cerca de 200 páginas de informações detalhadas sobre os efeitos de cada um dos agentes biológicos sobre as populações."É curioso esse adiamento justo quando os norte-americanos se recusam a apoiar o acordo", afirmou Monteleone, que ocupa o cargo de diretor do Departamento de Assuntos Nucleares e de Bens Sensíveis do Ministério da Ciência e Tecnologia.Washington prometeu que irá apresentar até o final do ano novas propostas para fortalecer o combate às armas biológicas. Mas um diplomata norte-americano garante: "O acordo atual é impossível de ser corrigido".

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