Manaure Quintero/Reuters
Manaure Quintero/Reuters

Venezuelanos cortam lenha de parque nacional para preparar comida

Ausência de gás de cozinha no varejo faz com que moradores da cidade de Maracay recorram ao Parque Nacional Henri Pittier, de 108 mil hectares, para usar lenha em fogões improvisados

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2019 | 15h16

MARACAY, VENEZUELA - Durante anos, Endy Pérez começava seus dias acendendo o fogão de sua pequena casa na cidade venezuelana de Maracay. Hoje em dia, sua rotina do café da manhã começa com a busca por lenha em um parque nacional nos fundos de sua casa.

Devido à falta crônica de gás natural no país com as maiores reservas de petróleo do mundo, as árvores são cada vez mais usadas como combustível na cozinha.

“Não tenho outra opção, tenho dois filhos... tenho que cozinhar”, disse Endy, uma dona de casa de 39 anos, ao lado de um fogão a lenha improvisado instalado na varanda na extremidade do Parque Nacional Henri Pittier, de 108 mil hectares.

O uso crescente de lenha causa alarme em ativistas, que dizem que os debates sobre os problemas ambientais muitas vezes são ofuscados pela inflação em disparada, o colapso econômico e um impasse político prolongado.

Incêndios e construções de casas devastaram cerca de 10% do Henri Pittier nos últimos 40 anos, disse Enrique García, diretor do grupo ecológico Sembramos Todos.

Além disso, explicou, o uso de lenha em áreas urbanas pode causar problemas respiratórios por causa da fumaça, da elevação das temperaturas nas cidades e do risco crescente de deslizamentos de terras em comunidades pobres em que as casas, muitas vezes, são erguidas em terreno instável.

Agora, os fogões a lenha são uma visão comum em toda a Venezuela por causa da escassez de gás. Tanques usados para armazenar e transportar propano estão em mau estado por falta de manutenção.

Em alguns casos, pessoas queimam lixo perto de uma árvore para secá-la para que possa ser cortada e usada para cozinhar. As autoridades estão praticamente ignorando a legislação que proíbe o corte de árvores sem permissão.

Não existem dados oficiais ou privados sobre o impacto ambiental do uso crescente de lenha. O Ministério da Informação não respondeu a um pedido de comentário.

Algumas cidades têm uma cobertura de árvores tão pequena que as pessoas em busca de lenha têm que andar quilômetros.

Maria Aldana, aposentada de 61 anos, diz que caminha 5 quilômetros de sua casa de Maracaibo a uma área arborizada para conseguir lenha, já que o gás de cozinha não é entregue há três meses.

“Estou indignada pelo que estou passando”, disse Aldana, que em dias alternados coleta pequenos gravetos ou usa um machete para cortar galhos e levá-los para casa em um antigo carrinho de bebê. / REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.