Sem governo, cresce apoio à divisão da Bélgica

Flamengos e valões não se entendem e paralisia ameaça unidade do país

The Guardian e Reuters, Bruxelas, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 00h00

Cem dias após o democrata-cristão Yves Leterme ter sido eleito novo primeiro-ministro da Bélgica, o país ainda não tem governo e enfrenta a pior crise política de sua história. Dividida entre flamengos, que falam holandês, e valões, que falam francês, os belgas terão de decidir em breve se continuam unidos ou se seguem o caminho da Checoslováquia, que se separou em 1993. Ontem, uma pesquisa do jornal Het Laatste Nieuws revelou que dois terços dos flamengos acreditam que o país acabará se dividindo, e 40% deles apóiam a separação.A Bélgica é uma monarquia constitucional federalista que surgiu como um Estado tampão entre a Alemanha e a França, no século 19. Para costurar as divisões culturais foi montado um complicado sistema político. Além do Parlamento nacional, há outros cinco Parlamentos organizados com base em região e língua. A crise começou após a eleição de Leterme. Os políticos flamengos, entre eles o premiê, querem reformar o Estado, tornando a Valônia, que é mais pobre do que Flandres, responsável pelas próprias finanças. Os dois lados sempre reclamaram de discriminação. Médicos valões se recusam a tratar pacientes flamengos e vice-versa. Casamentos interlingüísticos são raros. Os flamengos, que falam bem o francês, se queixam que os valões não se comunicam em holandês. "Não há um sentimento de união belga. Não há uma língua belga, não há nada belga", disse esta semana Filip Dewinter, líder do partido nacionalista flamengo Vlaams Belang. Em julho, durante as comemorações do mais importante feriado nacional, o dia em que o rei Leopoldo I jurou a Constituição, em 1831, o premiê Leterme deu o tom exato da crise. Perguntado por um repórter de TV se ele conhecia o hino da Bélgica, Leterme disse que sim e cantou a Marselhesa, o hino da França, causando indignação do eleitorado valão. O país já teria se dividido se os belgas soubessem de que lado Bruxelas ficaria. Historicamente flamenga, a capital afrancesou-se com o tempo e virou uma cidade valona.

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