Mario QUILODRAN / AFP
Mario QUILODRAN / AFP

Sem internet, uma sala de aula sobre rodas salva o ano para crianças indígenas Mapuche do Chile

Professores usam van escolar para levar ensino até a casa de quem não tem acesso a computadores; protocolos sanitários são rigorosos

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 02h30

SANTIAGO - No sul do Chile, uma pequena escola usa vans escolares para levar para a aula as crianças que vivem em zonas rurais, muitos de origem Mapuche e sem acesso a computadores ou internet em um país semiparalisado pela pandemia. 

O novo coronavírus esvaziou as escolas do Chile, obrigando milhões de crianças a fazer aulas on-line. Mas existem regiões do país onde até 76% dos alunos não têm acesso à internet, segundo estudo da Fundação País Digital. É o caso de Araucanía, uma das regiões mais pobres do país. 

Nessa região rural fria e chuvosa, centenas de crianças ficaram sem nenhum tipo de aula quando foram suspensas as atividades escolares, desde a segunda quinzena de março. 

Diante desse cenário, a educadora pré-escolar Marcela Cea, de 29 anos, e o motorista de van escolar Alexis Araneda, de 34 anos, resolveram ir com a van até a casa dos alunos e dar aulas dentro do veículo. Os dois são do colégio Dream House, em Catripulli, comuna de Carahue.

"Eu achei muito bom porque há lições de casa que alguns não entendem, nem seus pais, então podem vir até os professores e pedir aulas extras", disse a estudante de 11 anos Katalina Zuñiga, que faz as aulas em frente ao quintal de casa. 

A mãe dela, Modesta Caniuñir, agradece o esforço por ser uma ajuda aos pais com as lições de casa. "Assim, os alunos não ficam atrasados nas tarefas", afirma.

Araucanía, a cerca de 500 km ao sul de Santiago, está em terceiro lugar entre as regiões com mais concentração de casos da covid-19, em um país que já conta com mais de 250 mil contágios e supera os 7 mil mortos. Carahue está entre as 10 comunas com mais casos. 

Segurança sanitária 

As aulas na van passam por todos os protocolos sanitários para crianças como Katalina e César Méndez Cadín, de 12 anos. Os dois estão no sexto ano e fazem parte de um grupo de 25 alunos que recebem mais apoio pedagógico e emocional do colégio. 

Uma vez por semana, cada um fica na frente da van, a quase dois metros de distância do professor, em um tapete já desinfetado com cloro, sob um estrito protocolo que inclui o uso de álcool em gel, de roupas descartáveis, protetores de calçados e máscaras.

Após uma conversa rápida, na qual o professor avalia o estado de ânimo do aluno, a aula começa. César gosta das aulas de ciências, diz antes de ir brincar com as cabras no curral da família, única diversão agora que não pode brincar na escola. 

A aula de Katalina com o professor Osmín Flores envolve o tema do We Tripantu, o ano-novo mapuche, comemorado entre 21 e 24 de junho, no solstício de inverno. Neste ano, Katalina pede que a purificação da Terra alcance a saúde das pessoas e acabe com a pandemia. 

Na escola Drem House, 71% dos 101 estudantes são de ascendência mapuche, um povo indígena que vive no Chile e na Argentina. A maioria dos pais se dedica à agricultura. Em Araucanía, a internet é uma ilusão para 76% das famílias. / AFP

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