Sem Kadafi, Trípoli vive revolução no cotidiano

Capital líbia passa por transformação acelerada após o fim da ditadura, com mudanças de hábitos de sua população que antes seriam vistos como uma séria afronta ao regime

É JORNALISTA, CLIFFORD, KRAUSS, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, CLIFFORD, KRAUSS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2011 | 03h01

Trípoli não é mais a capital de um Estado policial. Em questão de semanas, a cidade transformou-se em algo animador e, ao mesmo tempo, inquietante.

Os vendedores de haxixe exibem abertamente seu produto na Praça dos Mártires - a antiga Praça Verde dos tempos do ditador Muamar Kadafi. Os motoristas ultrapassam os faróis vermelhos sem se preocupar, enquanto as manifestações políticas misturam-se no tráfego.

Membros de milícias que substituíram a odiada polícia em muitos bairros ainda se mostram pouco disciplinados com suas armas. Frequentemente, atiram contra as pessoas ou para o ar.

A capital líbia é uma cidade vibrante de quase 2 milhões de habitantes, com um porto animado, adornada por ruínas romanas e antigas muralhas construídas pelos otomanos. Mas embora tenha passado por grandes mudanças no decorrer dos séculos, o que ocorre hoje seria impensável há alguns meses, quando Kadafi ainda controlava os mínimos detalhes da vida cotidiana.

Cobrir os vidros do carro com filme escuro era proibido; hoje os motoristas os colocam nos veículos para se proteger do sol abrasador, mas também como um sinal da sua nova liberdade.

Vendedores de frutas e legumes não podiam vender sua mercadoria em muitas ruas; agora uma multidão deles vende bananas e laranjas embaixo de viadutos e nos cruzamentos, o que piora os congestionamentos.

Kadafi proibiu avisos e sinais de trânsito em inglês. Hoje estão por toda parte da cidade, embora poucos líbios compreendam a língua. É mais uma expressão de liberdade, como também a disposição do país a se abrir para o mundo exterior.

"Trípoli tem uma nova pulsação", diz um cartaz mostrando dois milicianos abraçando-se, que foi instalado pelo governo municipal provisório. Até os grafites revolucionários, que estão por toda a parte, estão em inglês. "Lybia Free" (Líbia Livre) é o mais comum. Alguns trazem a inscrição "Obrigado, Otan" pela ajuda militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte, que foi crucial para a destituição do governo.

Naturalmente, há inúmeras caricaturas do ditador morto em roupas de palhaço ou como a cabeça de um animal. Muitos moradores dizem que jamais foram tão felizes, mas ainda existe um pouco de inquietação.

"As pessoas não sabem o que é liberdade", conta Sara Abulher, estudante de Direito na Universidade de Trípoli, que foi rebatizada para apagar o nome dado a ela pelo governo de Kadafi. "As pessoas acham que liberdade é fazer o que quiser, mas significa também respeitar as necessidades dos outros. Liberdade significa não ultrapassar os limites."

A estudante disse estar desconcertada com o fato de tantas colegas universitárias repentinamente se desfazerem do seu hijab, tradicional véu que cobre a cabeça das muçulmanas.

Para Otman Abdelkhalig, enfermeiro no pronto-socorro do Hospital Central de Trípoli, a Líbia é um novo país. "As pessoas estão felizes, pois finalmente podem falar livremente", diz.

Violência no trânsito. Mas para ele também há o lado sombrio dessa nova liberdade. Os motoristas de Trípoli sempre foram conhecidos por dirigir em alta velocidade e mudar de pista aleatoriamente, mas esse modo de dirigir está chegando a extremos.

Pelo menos 15 vítimas de acidentes de carro chegam ao hospital diariamente, com braços ou costelas quebrados, ferimentos na cabeça, um número três vezes maior do que o normal.

Além disso, diariamente pessoas chegam no pronto-socorro com ferimentos de bala. O novo governo provisório está apenas começando a formar um Exército nacional e organizar uma policia local e nacional.

O número de policiais de Trípoli encarregados do tráfego e infrações comuns era de 4 mil, mas muitos abandonaram o emprego e seus superiores foram demitidos.

O suborno outrora era o principal meio de os policiais de trânsito ganharem algum dinheiro, mas esses antigos hábitos estão mudando, pelo menos agora.

"Não é momento para multar", disse o sargento Mobruk Ali, sentado num carro da polícia, circulando pelo porto e olhando os carros que trafegavam em alta velocidade. "Primeiro precisamos tirar as armas dos rebeldes e, então, passaremos ao trabalho de fato."

Felizmente, a falta de uma política normal não parece ter resultado numa onda de crimes além de aumentar o vício. Algumas pessoas queixam-se de mais roubos de carros, mas os moradores não se sentem em perigo ao caminhar pelas ruas e os comerciantes dizem não temer roubos.

"Temos uma perspectiva religiosa", afirmou Sadek Khalil, dono de uma joalheria na parte antiga da cidade onde estão expostas pulseiras e colares de ouro e prata aparentemente sem proteção. "As pessoas que lutaram por seu país não vão retroceder e roubar lojas. Temos problemas, mas tudo é possível agora que nos libertamos daquele idiota autoritário."

Drogas. Mas um outro tipo de negócio está ativo no bairro em ruínas de Gergarg, um dos mais pobres da cidade, onde gatos selvagens revolvem o lixo nas ruas sujas. As pessoas estão vendendo abertamente haxixe e "bokha", um licor destilado de figos, em sacos de plásticos e na frente de suas casas.

Durante o governo de Kadafi a venda de álcool e drogas era ilegal e quem negociava essas mercadorias o fazia em segredo. Hoje as pessoas circulam abertamente pelos bairros e poucos tentam ocultar suas atividades.

"A Líbia está totalmente diferente", disse um desses vendedores, que se identificou como Ibrahim, mostrando caixas de uísque, vodca, vinho tinto da Tunísia e barras de haxixe para um cliente em sua garagem. "Tudo é bom. Estamos livres." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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