Sem margem de manobra

Campanha internacional contra o Estado Islâmico não pode ser prejudicada pela derrubada de um caça russo

The Economist

29 de novembro de 2015 | 02h00

É bem possível que os eventos que culminaram na derrubada de um avião militar russo pela Turquia, no dia 24, fossem evitáveis. Mas estão longe de constituir um acidente. A Turquia diz que, nos cinco minutos que precederam a passagem de dois caças Sukhoi por seu espaço aéreo – numa região em que um filete do território turco se embrenha por alguns quilômetros da Síria –, foram emitidas dez advertências. E, apesar das negativas da Rússia e da hipótese de que o Sukhoi tenha sido atingido pelo míssil turco quando já havia retornado ao espaço aéreo sírio, as informações disponíveis parecem dar razão à Turquia. 

Os russos fizeram uma provocação. Os turcos não pensaram duas vezes para reagir. O importante é que o maior beneficiário não seja o Estado Islâmico (EI). E é esse o risco agora, já que a perda do avião ameaça envenenar as relações entre dois países profundamente envolvidos – em lados opostos – na guerra civil síria: a Rússia apoia o regime de Bashar Assad; a Turquia, alguns de seus oponentes sunitas. 

O presidente russo Vladimir Putin caracterizou a ação turca como “punhalada nas costas, desferida por cúmplices dos terroristas” e disse que as “consequências serão sérias”. A Rússia vem bombardeando posições de sírios turcomanos, que têm afinidades com a Turquia e vivem perto da fronteira com o vizinho do norte. Um aumento nas animosidades entre turcos e russos teria péssimas consequências para aquilo que realmente importa: combater o EI e restabelecer a paz na Síria e no Iraque.

Isso significa que o presidente francês, François Hollande, carrega uma grave responsabilidade nos ombros. Determinado a reagir aos atentados de Paris, e armado com uma resolução da ONU, Hollande fez uma peregrinação por várias capitais, na tentativa de coordenar esforços e galvanizar a campanha contra o EI. No dia 25, esteve com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. No dia seguinte, visitou Putin em Moscou. Ainda que sua tarefa tenha se dificultado, é mais crucial do que nunca.

Duas iniciativas se fazem necessárias para neutralizar as sequelas da derrubada do caça. Em primeiro lugar, é importante que a Turquia seja publicamente apoiada por seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Depois de violações anteriores, a Turquia advertiu caças russos e derrubou um drone – que a Rússia nega ser seu. É interesse legítimo da Otan desencorajar novas incursões e demonstrar união. Ambas as coisas exigem que a aliança apoie a Turquia.

Em segundo, os países da Otan precisam, reservadamente, pressionar os turcos a se controlar e mudar de comportamento. Ancara está mais interessada em atacar curdos na Síria e derrubar Assad do que em derrotar jihadistas. Além disso, não foi capaz de estancar o contrabando na fronteira, por onde o EI negocia seu petróleo.

Evitar a escalada é a parte mais fácil. Difícil será convencer Turquia e Rússia a concentrar suas ações no combate ao EI. A Turquia precisa entender que, assim como conta com o apoio de seus aliados na Otan, também tem responsabilidades em relação a eles. Alguns turcos argumentam que enfrentar o EI só beneficiará os curdos. Mesmo que isso fosse verdade, a Turquia também está sujeita aos vandalismos do EI – como mostram dois atentados a bomba ocorridos nos últimos meses, um em Suruc, outro em Ancara, que, juntos, resultaram em mais mortes do que os atentados de Paris. Se os turcos realmente querem se livrar de Assad, a única saída é trabalhar em conjunto com os russos, não combatê-los.

Concordância. É viável contar com a colaboração da Rússia? Tudo indica que a campanha dos russos na Síria não vai muito bem. Além do Sukhoi derrubado pelos turcos, Moscou perdeu um helicóptero, que tinha sido enviado para resgatar os pilotos do caça e acabou abatido por um míssil do Exército Sírio Livre, um dos grupos que combatem o regime de Assad. Depois de anos de guerra, o Exército de Assad está em más condições. Graças ao apoio aéreo dos russos, suas tropas conseguiram estabilizar a situação, mas não foram capazes de reconquistar porções grandes de território. 

Os crimes de Assad são tantos que ele representa um fardo para Putin. Com Assad no poder, não há paz possível na Síria. Espera-se que Hollande tenha lembrado a Putin de que a Rússia também tem motivos para combater o EI. No dia 31, a explosão de um avião da companhia aérea Metrojet resultou na morte de mais de 200 cidadãos russos. E há jihadistas russos sendo radicalizados na Síria.

Estabelecer uma aliança contra o EI talvez esteja além das possibilidades de Hollande. Mas ele pode modificar a ordem de prioridades – dando mais ênfase à questão do EI e à necessidade de que turcos e russos se entendam. A esperança é que, com o pântano sírio se alastrando, e a memória do Sukhoi abatido ficando para trás, Hollande descubra que tem o tempo a seu lado./TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.