REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Sem medicamentos, venezuelanos transplantados lutam para sobreviver

Em janeiro, ao menos 31 pessoas tiveram órgãos transplantados rejeitados devido à falta de medicamento e, desde dezembro, outras 7 morreram por complicações, segundo ONG; no país, mais de 16 mil pessoas dependem de diálise para limpar o sangue

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2018 | 15h43

CARACAS - Quase duas décadas atrás, Yasmira Castano achou que tinha ganhado uma nova chance de viver ao receber um novo rim transplantado. Ainda jovem, esta venezuelana conseguiu terminar o ensino médio e passou a trabalhar como manicure.

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No ano passado, no entanto, a grave crise no sistema público de saúde da Venezuela, ocasionada pela deterioração da economia e da política no país, fez com que Yasmira, de 40 anos, não conseguisse encontrar os remédios necessários para evitar que seu corpo rejeitasse o órgão.

Na noite de Natal, quase sem forças e com a saúde debilitada, ela foi internada às pressas em um hospital público da capital venezuelana, Caracas. Seu sistema imunológico atacou o rim transplantado e ela acabou perdendo o órgão dias depois.

Agora, Yasmira precisa de diálise três vezes por semana para filtrar seu sangue, mas o hospital da Universidade Central da Venezuela, que já foi uma das principais instituições de saúde da América do Sul, sofre frequentemente com falta de água e carece de materiais básicos para este tipo de tratamento.

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"Passo muitas noites sem dormir, preocupada", diz Yasmira, que pesa cerca de 35kg, enquanto aguarda deitada em um velho leito de um quarto sombrio do hospital, cujas paredes não contam com nenhum tipo de adorno e os pacientes não têm TVs ou qualquer outro objeto para se distrair.

Sua companheira de quarto, Lismar Castellanos, que acabou de completar 21 anos, descreve a situação de uma forma mais direta. "Infelizmente, posso morrer", diz a jovem, que perdeu seu rim transplantado no ano passado e também enfrenta dificuldades para realizar as sessões de diálise que mantém seu corpo funcionando.

Essas duas mulheres são exemplo da luta diária vivida pelos cerca de 3,5 mil venezuelanos transplantados. Depois de vários anos vivendo vidas normais, hoje muitos deles temem que o colapso da economia do país no últimos anos do governo de Nicolás Maduro impeça Caracas de importar medicamentos ou de produzi-los nos laboratórios instalados no país.

Apenas em janeiro, ao menos 31 venezuelanos viram seus corpos começarem a rejeitar os órgãos transplantados em razão da falta de medicamento adequado, segundo dados da ONG Codevida. E, nos últimos três meses, outras 7 pessoas morreram no país em razão das complicações resultantes das falhas em órgãos.

Além disso, ao menos 16 mil pessoas - muitas delas em intermináveis filas de espera por um órgão - dependem da realização de diálise para limparem o sangue e, por isso, sofrem com a falta de materiais e insumos em todo o sistema de saúde.

Caos

Quase metade das unidades de diálise da Venezuela estão fora de serviço, segundo o deputado opositor e oncologista, José Manuel Olivares, que visitou centros de diálise em todo o país para avaliar a escala do problema e é um dos principais nomes a denunciar a grave crise vivida pelos hospitais venezuelano.

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Doenças antes controladas, como difteria e sarampo, voltaram a infectar centenas de milhares de pessoas em todo o país devido à falta de vacinas e de antibióticos, e muitos venezuelanos que sofrem de doenças crônicas como câncer ou diabetes por vezes têm de abandonar o tratamento.

A crise é tão grave que centenas de milhares de pessoas deixaram o país no ano passado, incluindo muitos profissionais de saúde. Enfrentando falta de insumos básicos, como cateteres, e com a infraestrutura hospitalar em ruínas, os médicos que não continuam atendendo lutam para tratar todos os pacientes com recursos cada vez mais escassos. 

"É incrivelmente estressante. Pedimos suprimentos que nunca chegam. Pedimos novamente e, mesmo assim, eles nunca são entregues. Então, percebemos que é porque (no país) não há mais insumos", disse um especialista em rim de um hospital público venezuelano, que pediu para não ter o nome revelado por não ter autorização para comentar a crise no sistema de saúde. 

O Instituto Venezuelano dos Seguros Sociais, a quem cabe a função de fornecer os remédios para os pacientes com doenças crônicas, não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Caminho sem volta

Desesperados, os pacientes transplantados estão se endividando para comprar remédios a preços exorbitantes no mercado ilegal, recorrendo a parentes no exterior para enviar as drogas para o país ou reduzindo as doses diárias que deveriam tomar para prolongar seus estoques.

No ano passado, Larry Zambrano, de 45 anos e pai de duas crianças, recorreu a imunossupressores voltados para animais para driblar a falta de medicamento

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Guillermo Habanero e seu irmão Emerson foram submetidos a transplantes de rim após sofrerem de doença renal policística. Emerson, que era um saudável policial antes de adoecer, morreu em novembro  aos 53 anos depois de meses sem conseguir doses de imunossupressores.

"Se você perde seu rim, vai para a diálise. Mas aí não há insumos para a realização do tratamento. E você vai direto para o cemitério", afirmou Habanero, de 56 anos, dono de uma pequena loja de reparos de computadores em Cátia, uma favela de Caracas.

Um repórter da agência Reuters tentou conversar pessoalmente com algum responsável no Ministério da Saúde da Venezuela. Na entrada do prédio, teve os dados anotados e foi informado que receberia um contato. Ninguém do governo telefonou ou enviou um e-mail.

A agência também não conseguiu falar com a unidade do ministério responsável pelos transplantes, a Fundação Venezuelana de Doações e Transplantes de Órgãos, Tecidos e Células (Fundavene), cujos telefones e o site estão fora do ar - incluindo uma página no Facebook, que parece abandonada.

O governo Maduro diz que o verdadeiro culpado pela crise é uma elite comercial, liderada pelos Estados Unidos, que tenta sabotar a agenda bolivariana represando a venda de medicamentos e impondo sanções.

"Eu vejo o cinismo dos militantes de direita, preocupados com as pessoas que não consegue realizar diálise, mas é tudo culpa dessas mesma pessoas: eles (a direita) pediram pelas sanções e pelos bloqueios contra a Venezuela", afirmou recentemente em seu programa semana na TV estatal o número 2 do chavismo, Diosdado Cabello.

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Ativista da área de saúde culpam Maduro por sua gestão da crise na área da saúde, considerada insuficiente e corrupta, e afirmam que os anúncios do governo sobre a ampliação da importação de materiais para diálise são totalmente insuficientes.

Apesar da impopularidade, Maduro deve ser reeleito para um segundo mandato de seis anos na votação presidencial marcada para 22 de abril. A oposição provavelmente boicotará a eleição por considerá-la armada para favorecer os candidatos governistas.

No passado, Maduro se recusou a receber doações de alimentos e remédios, apesar do agravamento da crise. Muitos ativistas e médicos recorrem ao contrabando para ter acesso os insumos, fornecidos muitas vezes pelos membros da diáspora venezuelana. Mesmo este esforço, no entanto, não é suficiente para suprir a demanda.

No hospital em decadência e no centro de diálise visitado pela Reuters, os pacientes clamavam por ajuda humanitária internacional.

Enfeitada para seu aniversário e rodeada por bolos, Lismar Castellanos, a jovem de 21 anos, tirava selfies com seus amigos e falava emocionada sobre os planos de um dia voltar a praticar uma de suas atividades favoritas, a dança.

Mas seus medos em relação ao futuro também permeavam o quarto. Um funcionário do hospital passou para desejar felicidade e muitas outras festas de aniversário. A jovem agradeceu, mas seu rosto preocupado deixou transparecer todas suas dúvidas. "Os outros países precisam nos ajudar", apelou a jovem. / REUTERS

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