Luis Asín/Divulgação
Luis Asín/Divulgação

Sem memória

Em artigo exclusivo para o estadão.com.br, escritor espanhol relata as lembranças dos ataques em Madri

Marcos Giralt Torrente,

11 Setembro 2011 | 18h08

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

Em 11 de março de 2004, a notícia em todos os jornais do meu país eram as eleições gerais que se celebrariam três dias depois. O partido do governo, presidido por José María Aznar, tinha certeza de que venceria, mesmo que sua decisão de envolver a Espanha na guerra do Iraque tenha sido rigorosamente contestada nas ruas e pela oposição no Parlamento.

 

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Passadas as 7h30 da manhã, o horror e o inexplicável converteram este dia em fatídico e em já velhos os jornais que somente os mais madrugadores haviam lido. Dez bombas explodiram em quatro abarrotados trens que se aproximavam a Madri desde bairros populares do sul, enquanto as rádios davam a notícia e a cidade se enchia de sirenes: somente houve tempo para o espanto.

 

Em Madri, em todo o país, não cabia outra atitude além de horrorizar-se com as imagens das vítimas, dos feridos esperando ajuda, dos corpos destroçados e cobertos com mantas e, entre uns e outros, a desbordada agitação do pessoal dos serviços de emergência e de inúmeros e espontâneos civis unidos no solidário afã de dar socorro.

 

O que ocorreu depois é bem conhecido: o governo atribuiu o atentado ao ETA (grupo que durante anos teve a exclusividade do terrorismo na Espanha), cresceram as evidências da implicação da Al-Qaeda, o governo insistiu em negá-las com medo de que a população considerasse os atentados uma conseqüência da entrada na guerra do Iraque, se propagou a sensação de que o governo mentia de propósito para evitar um castigo nas urnas e, quando o PP quis retificar, já era tarde: perdeu as eleições.

 

Isso sucedeu no sábado 14 de março, após três dias de tensão e de manifestações de dor que, pouco a pouco, conforme a vulgaridade do governo ficou evidente, foram transformadas em indignados protestos.

 

No dia 11 de março de 2004 eu não estava em Madri, minha cidade de nascimento e onde vivo atualmente, mas na Escócia, onde residia como escritor convidado na Universidade de Aberdeen.

 

Passava o dia sozinho, fechado em um escritório e foi ali que fiquei sabendo dos atentados. Vivi os ataques intensamente, quase a tempo real graças à internet, mas não estava em Madri, não escutei as sirenes, não vi as caras de angústia dos meus concidadãos, não senti o medo de caminhar pelas ruas, a confusão de não saber se haveria mais bombas, não assisti a esse luto compartilhado que ocorre em catástrofes entre pessoas que não se conhecem e que jamais voltarão a se encontrar, não pude mostrar minha dor em manifestações.

 

Lembro de caminhar pelas ruas de Aberdeen ensimesmado de incredulidade, com o olhar abstraído que depois soube que andava todo mundo em Madri. Mas não estava, não vivi os atentados e, ao longo de todos os anos transcorridos tenho sentido em diversas ocasiões que há uma parte importantíssima da memória emocional da minha cidade que me falta.

 

* é um premiado escritor espanhol. Neste ano, foi reconhecido com o II Premio Internacional de Narrativa Breve Ribera del Duero. Autor de seis livros, também é crítico no Babelia, caderno literário do jornal 'El País'.

 

Tradução: Christina Stephano de Queiroz

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