Luis ROBAYO / AFP
Luis ROBAYO / AFP

Sem passaporte, venezuelanos se arriscam na travessia da Colômbia para o Equador

Desesperados, imigrantes que fogem da crise econômica em seu país ignoram exigência para entrar no Equador - a regra entrou em vigor no fim de semana - e seguem viagem pelo país; Peru também passará a exigir documento a partir de sábado

O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 15h15

IPIALES, COLÔMBIA - Dezenas de imigrantes venezuelanos em fuga da crise econômica em seu país e buscando uma nova vida em outros lugares desafiam a regra que exige a apresentação de um passaporte válido para cruzar a fronteira da Colômbia para o Equador.

Centenas de pessoas que viajaram durante dias depois de deixarem a Venezuela, a maioria de ônibus mas algumas a pé, foram impedidas de atravessar um posto de verificação próximo de Ipiales, cidade do sudoeste colombiano, por causa da regra determinada pelo presidente equatoriano, Lenín Moreno, que entrou em vigor no sábado.

Como a tensão se elevou na fria cidade montanhosa, imigrantes decidiram enfrentar o risco de detenção e simplesmente cruzaram a fronteira, uma região sem grades e pouco vigiada, depois de enfrentarem dias gelados na passagem de Rumichaca.

“Não temos dinheiro, precisamos seguir em frente agora e recomeçar nossas vidas”, disse Mayerly Isaguirre, ofegante por arrastar seus pertences pela colina íngreme do lado equatoriano fronteira.

Essa professora primária de 37 anos viajava com o namorado e planejava cruzar ilegalmente apenas com sua carteira de identidade venezuelana para procurar emprego no Peru, onde parentes chegaram com sucesso semanas atrás.

Depois de mais de 24 horas tremendo de frio na divisa, ela se arriscou. “Eles não nos disseram nada - estamos esperando como idiotas”, disse Mayerly, puxando sua mala através do posto de verificação sob os olhares dos guardas.

O governo peruano anunciou medidas imigratórias semelhantes às do Equador, e passará a exigir passaportes dos venezuelanos a partir do próximo sábado. 

No domingo o Equador disse que crianças e adolescentes viajando com os pais podem atravessar sem passaportes. “Eles estão no limbo”, disse Gustavo Salvador, funcionário da Cruz Vermelha no Equador. “Muitas pessoas que estão cruzando ilegalmente receberão multas na fronteira do Peru, e estas pessoas não têm dinheiro.”

Pela região de Rumichaca, apenas neste ano, 423 mil venezuelanos entraram no Equador. Do lado colombiano, em Ipiales, muitas pessoas que viajaram durante dias e resolveram esperar para fazer a travessia estão amontoados em tendas. Exaustos e famintos, eles juntaram seus últimos pesos para comprar comida.

Muitos, como Jorge Luis Torrealba, que viajou com 12 amigos e parentes, incluindo dois filhos pequenos, não conseguiram encontrar espaço nas tendas e estão dormindo em calçadas, apesar das baixas temperaturas.

"Nós somos do Caribe, não aguentamos esse frio", disse ele, tremendo apesar de usar quatro camisetas, duas blusas, dois pares de meias e duas calças jeans. Torrealba reconheceu que pensa em cruzar a fronteira com o Peru mesmo sem ter passaporte, apesar de temer o que pode acontecer com seus filhos se ele for detido. "Só queremos seguir em frente."

Os ministérios equatorianos de Relações Exteriores e do Interior não quiseram comentar. Não foi possível contatar uma porta-voz do escritório de imigração da Colômbia de imediato.

Para a Defensora do Povo do Equador, Gina Benavides, a proibição de passagem sem o documento imposta pelo governo vai incentivar a migração irregular, o que poderia resultar no aumento dos delitos que a medida pretende combater.

Mais de 1 milhão de venezuelanos entraram na Colômbia nos últimos 15 meses, segundo estimativas oficiais. Brasil, Equador e Peru também receberam uma grande onda migratória de pessoas que deixaram o país caribenho em busca de melhores condições de vida. / REUTERS e EFE

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