Kim Hong-Ji/Reuters
Kim Hong-Ji/Reuters

Sem previsão de vacina até março, Coreia do Sul enfrenta aumento de casos de covid-19

O país, que chamou atenção por seus baixos números da doença durante o ano, agora luta contra sua mais dura onda de infecções

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 16h00

SEUL- Enquanto diversos países começam a se preparar para dar início a uma estratégia de vacinação para conter o novo coronavírus, a Coreia do Sul, que chegou a se destacar por seus baixos números da doença durante o ano, agora luta contra sua mais dura onda de infecções. O número de novos casos, que já esteve em dois por dia, subiu para 682 nesta quinta-feira, 10. Na quarta-feira, foram 686 novos casos, a maior contagem diária desde 29 de fevereiro.

A luta do país para conter o aumento recente é uma corrida contra o tempo. O presidente Moon Jae-in instruiu seu governo a mobilizar soldados, policiais e funcionários públicos para ajudar epidemiologistas no rastreamento. 

Nesta semana, o governo sul-coreano anunciou que garantiu doses suficientes de vacinas contra o coronavírus de empresas como AstraZeneca e Pfizer para cerca de 86% da população, mas o primeiro lote não chegará até março.

A Coreia do Sul foi atingida por quatro ondas de infecções desde que seu primeiro caso foi relatado em janeiro. Segundo autoridades de saúde, porém, a última é de longe a mais difícil de controlar.  

O primeiro surto em massa apareceu em uma congregação da igreja na cidade de Daegu, no sul do país, em fevereiro, até que ele foi controlado por meio de uma campanha agressiva de testes e isolamento. O vírus se espalhou novamente em maio, quando um surto atingiu uma boate popular em Seul. Outra onda ocorreu em agosto, originada de uma igreja e de um comício antigoverno na capital. 


Essas ondas anteriores incluíram aglomerações massivas que as autoridades de saúde foram capazes de identificar e de rastrear. Enquanto isso, a onda atual se espalhou por pequenas aglomerações, eclodindo em lares de idosos, hospitais, saunas, bares, restaurantes, salas de música e fábricas, a maioria deles na área metropolitana de Seul, mas também em cidades mais distantes.

Ficou mais difícil para as autoridades de controle de doenças acompanhar a disseminação do vírus, disse Na Seong-woong, vice-comissário da Agência Coreana de Controle e Prevenção de Doenças. Os casos diários continuam a aumentar, apesar das diretrizes de distanciamento social mais rígidas e outras medidas. Na Seong-woong advertiu que o número de casos diários pode ultrapassar 900 na próxima semana.

“Estamos enfrentando nossa maior crise de coronavírus porque a onda atual não é temporária nem regional, mas constante e nacional”, disse ele. “Não temos um cluster central que possamos encerrar com um teste focado e uma campanha de isolamento, mas está surgindo aqui e ali e em todos os lugares em nossas vidas diárias.”

Existe ainda a questão da fadiga da pandemia. Especialistas acreditam que a onda atual está sendo alimentada por pacientes mais jovens assintomáticos e outros que estão cansados de uma vida prolongada de distanciamento social. Autoridades de saúde disseram que esses grupos têm maior probabilidade de comer fora e festejar em pequenas reuniões internas sem máscaras.

Os sul-coreanos também podem ter baixado a guarda assim que o inverno (no hemisfério norte) começou, quando  muitas pessoas voltaram para espaços internos mal ventilados, nos quais o vírus pode se espalhar mais facilmente.

“As notícias sobre a conclusão do desenvolvimento de vacinas e as expectativas de suas altas taxas de eficácia também criaram uma ilusão entre as pessoas de que a pandemia acabaria em breve”, disse o professor de medicina preventiva na Universidade Gachon Jung Jae-hun.

O governo está determinado a lutar contra o vírus enquanto mantém a economia funcionando o máximo possível. Sua estratégia dupla funcionou. Até agora, a Coreia do Sul evitou surtos avassaladores do tipo visto em outros países, mesmo sem fechar suas fronteiras ou bloquear cidades.

Essa estratégia envolvia endurecer as regras de distanciamento social quando o vírus surgia e relaxá-las quando o número de casos diminuía. Mas, na corrida para limitar o impacto da pandemia na economia, o governo foi acusado de afrouxar as restrições cedo demais e de endurecê-las tarde demais.

Agora, o país está correndo para localizar e isolar pacientes assintomáticos jovens ou de meia-idade, estendendo o horário de funcionamento dos centros de teste durante a noite e nos fins de semana e abrindo cabines de teste móveis perto de estações de trem e universidades. 

O governo também está introduzindo testes de saliva e antígeno, que são menos precisos do que o PCR, mas fornecem resultados mais rápidos e são mais fáceis de implantar, o que os torna úteis para a testagem de grandes grupos e em locais onde as pessoas precisam ser testadas com urgência, como prisões ou casas de repouso, disseram as autoridades.

O sucesso da Coreia do Sul em controlar a onda atual afetará seu programa de vacinação. O país planeja estocar vacinas e adiar sua administração até que outras nações atingidas por surtos mais graves tenham inoculado, com segurança e sucesso, um grande número de cidadãos. “Nossa estratégia é ser rápido na aquisição de vacinas, mas mais cauteloso ao administrá-las”, disse o ministro da Saúde, Park Neung-hoo. “Mas, se a situação mudar e muitas pessoas pedirem, podemos começar a vacinação mais cedo.”/NYT

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