Jonathan NACKSTRAND / AFP
Jonathan NACKSTRAND / AFP

Sem quarentena, Suécia vai mudar política diante do avanço do coronavírus

Primeiro-ministro recorreu a raro pronunciamento nacional para alertar a população e disse que medidas voluntárias não estão sendo respeitadas

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 08h00
Atualizado 24 de novembro de 2020 | 19h59

ESTOCOLMO — O primeiro-ministro da Suécia, Stefan Lofven, fez um raro pronunciamento nacional domingo à noite para alertar a população sobre a crescente ameaça que o coronavírus representa, em meio a temores de que a estratégia usada até agora possa não ser suficiente para combater uma pandemia cada vez mais mortal.

A Suécia, que vinha adotando uma estratégia relativamente branda contra a pandemia do novo coronavírus, endureceu hoje as medidas de restrição e limitou a oito o número de pessoas em reuniões públicas. Esta foi uma das medidas mais radicais adotadas pelo governo sueco, que decidiu assumir um papel mais intervencionista diante de uma pandemia cada vez mais letal. 

Até então, o país vinha se destacando por não recorrer a quarentenas obrigatórias no combate à pandemia, confiando na responsabilidade pessoal dos cidadãos, com adesão voluntária a restrições. 

O país admitiu hoje de que não há sinais de que a imunidade de rebanho tenha ajudado na redução de novos casos e mortes. A Suécia, cuja abordagem para combater a pandemia atraiu atenção global, registrou 17.265 novos casos desde sexta-feira, informou a Agência de Saúde Pública, elevando a mais de 225 mil o número de casos, segundo a Universidade Johns Hopkins.

O epidemiologista-chefe da Agência sueca de Saúde Pública, Anders Tegnell, arquiteto da estratégia sem bloqueio, havia afirmado anteriormente que a Suécia se sairia melhor do que outros países na segunda onda, após construir uma imunidade coletiva.

A Suécia registrou 94 novas mortes, elevando o total para 6.500, hoje. A Suécia tem 10,2 milhões de habitantes e sua taxa de mortalidade per capita é várias vezes maior do que a de seus vizinhos nórdicos. Em comparação, a vizinha Noruega, com população de 5,4 milhões, registrou apenas 32 mil casos e pouco mais de 300 mortes. O jornal conservador Svenka Dagbladet, um dos maiores da Suécia, disse, citando fontes, que o governo manifestou frustração pelo prognóstico errado da Agência de Saúde Pública.

 

Pronunciamento raro

Lofven, o terceiro premier  na história do país a fazer um discurso em cadeia nacional, disse que "muitas pessoas têm sido descuidadas em seguir as recomendações" que as autoridades de saúde apontam como fundamentais para controlar o vírus.

Diante da taxa de mortalidade consideravelmente mais alta do que a dos outros países nórdicos e de leitos de terapia intensiva sendo rapidamente ocupados, as autoridades estão agora recalibrando sua política.

A decisão de Lofven de se dirigir à nação desencadeou uma onda de análises nos maiores jornais da Suécia nesta segunda-feira, com as páginas editoriais avaliando a seriedade do momento. Apenas dois primeiros-ministros suecos fizeram discursos semelhantes no passado: Carl Bildt, em 1992, após uma série de ataques a tiros por motivos raciais, e Goran Persson, em 2003, após o assassinato da chanceler Anna Lindh.

Em seu discurso de domingo, Lofven disse que “todos devem fazer mais” para combater o vírus. "A saúde e a vida das pessoas ainda estão em perigo, e o risco está aumentando", alertou. Os leitos de terapia intensiva estão enchendo rapidamente, com o dobro de pacientes infectados por coronavírus em 19 de novembro, em relação à  quinzena anterior. 

Em um recente relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Suécia consistentemente se classificou entre as nações mais duramente atingidas na Europa, como medido pelas taxas relativas de mortalidade e casos da covid-19. A OCDE também observou que a Suécia ficou muito atrás de seus pares na redução da taxa de transmissão.

"O objetivo das intervenções de prevenção, incluindo estratégias de contenção e mitigação, é trazer a taxa de transmissão para menos de um, isto é, quando o número de pessoas infectadas diminuirá com o tempo. Em média, os países levaram 34 dias para trazer esse indicador para menos de um depois que a epidemia começou a se espalhar. O país com o período mais curto foi Malta (11 dias), com a Suécia relatando o período mais longo (58 dias)", informou a OCDE.

Mas o ministro do Interior, Mikael Damberg, disse que ainda é muito cedo para tirar conclusões sobre a estratégia sueca.

"Vemos que grande parte da Europa foi atingida pela segunda onda", disse Damberg em entrevista à emissora pública SVT. "Nossa responsabilidade agora é que a Suécia não seja arrastada para uma situação tão séria quanto a dos outros países."

O governo, entretanto, parece reconhecer que as medidas até o momento têm sido inadequadas. No início deste mês, o primeiro-ministro optou pelo que chamou de medida "sem precedentes" de proibir reuniões públicas de mais de oito pessoas. 

A partir de 20 de novembro, as vendas de álcool também foram proibidas após 22h. Ambas as decisões foram um sinal de que medidas voluntárias não são mais suficientes.

A mensagem do premiê foi igualmente inequívoca na noite de domingo: a trégua da covid-19 durante o verão e o outono (norte) acabou. "Tudo o que você gostaria de fazer, mas não é fundamental, cancele, cancele, adie", disse./W.Post, Reuters e AFP

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