Sem reféns, negociadores voltam para casa e parentes lamentam

Chávez, no entanto, afirma que operação de resgate na Colômbia deve continuar 'de outra maneira'

Ruth Costas, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2008 | 00h00

Após quase uma semana de expectativa, o clima de frustração tomou conta de todos os envolvidos na operação para resgatar três reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), organizada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, e suspensa pelas Farc na segunda-feira."Acreditávamos que iríamos festejar o início do ano na Colômbia com o resto de toda nossa família", lamentou, em Caracas, Ivan Rojas, irmão de Clara Rojas, uma das reféns que seria solta. "Ainda assim, quero ressaltar que a operação foi apenas suspensa temporariamente, não abortada, e só sairemos de Caracas quando estivermos com nossos parentes." O assessor internacional da Presidência brasileira, Marco Aurélio Garcia, que integrava a comissão internacional organizada para avalizar a operação de resgate, também admitiu que estava decepcionado. "Todos perderam um pouco", disse antes de embarcar para Brasília. "Ao menos colocamos o tema das negociações humanitárias na ordem do dia." Ao chegar na base aérea de Brasília, Garcia, disse que ainda não há nenhum prazo previsto para uma possível retomada das conversas nem do cenário político que prevalecerá nesse momento. Mesmo assim, esquivou-se de qualificar o resultado da operação como um fracasso. Por causa da tentativa de resgate, os membros do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, representantes de sete países e parentes dos reféns tiveram de passar o dia 31 em Caracas ou em Villavicencio, vilarejo colombiano escolhido para a base das operações. Para eles, não havia motivos para festejar. Nos últimos dias, o presidente venezuelano transformou a operação em um verdadeiro show. Explicou à exaustão para mais de 150 jornalistas como os helicópteros da Venezuela resgatariam os reféns na selva colombiana e mobilizou os governos dos países vizinhos. Na segunda, porém, o otimismo deu lugar a um jogo de empurra com o presidente colombiano, Álvaro Uribe, sobre a responsabilidade do fracasso, que ameaçava ainda mais a já combalida relação entre os dois países.Segundo o grupo, além de Clara, assessora da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, seqüestrada em 2002, também seriam libertados a deputada Consuelo González de Perdomo e Emmanuel, filho de 3 anos de Clara nascido no cativeiro. Anteontem, as Farc anunciaram que não entregariam os reféns por causa de supostas ações militares das tropas colombianas na região. A acusação foi rebatida por Uribe com uma revelação que deu ao drama dos reféns um ar de telenovela. Segundo o presidente colombiano, as Farc não cumpriram com seu compromisso porque Emmanuel não está mais com eles. O filho de Clara com um guerrilheiro teria sido entregue para um orfanato na cidade de San José de Guaviare em julho de 2005 e hoje estaria em Bogotá. O nome dado ao menino no orfanato seria Juan David Gómez Tapiero. Emmanuel estaria doente, desnutrido, com sinais de tortura e teria um braço quebrado. Um grupo de especialistas colombianos chegou ontem à Venezuela para coletar amostras de DNA de parentes de Clara. Num comunicado divulgado ontem pela agência de notícias Anncol, as Farc negaram a versão de Uribe. Chávez também afirmou que o governo colombiano "mente" e disse o resgate dos reféns continuará "de outra maneira". Na semana passada, o líder venezuelano disse que uma segunda opção seria uma "estratégia clandestina". Uribe, por sua vez, disse que criará uma área livre de ações militares para que as Farc possam entregar os reféns. COLABOROU DENISE CHRISPIM MARINNEGOCIAÇÕES DIFÍCEIS 4/6/2007: Presidente colombiano, Álvaro Uribe, aceita pedido do presidente francês, Nicolas Sarkozy, e liberta o "chanceler" das Farc, Rodrigo Granda, para mediar negociações com a guerrilha 15/8/2007: Uribe nomeia a senadora Piedad Córdoba como facilitadora do acordo humanitário 17/8/2007: Presidente venezuelano, Hugo Chávez, aceita proposta de Piedad para ajudar no diálogo com a guerrilha 20/8/2007: Chávez recebe, em Caracas, parentes de reféns 26/8/2007: Farc aceitam Chávez como mediador 7/11/2007: Chávez revela que o líder máximo das Farc, conhecido como Manuel Marulanda, ordenou que os guerrilheiros dêem uma prova de vida dos reféns 20/11/2007: Chávez reúne-se em Paris com Sarkozy e diz que as Farc entregarão em 40 dias prova de que Ingrid Betancourt está viva 22/11/2007: Colômbia põe fim à mediação, depois de Chávez telefonar para comandante do Exercito sem autorização de Uribe 25/11/2007: Chávez chama Uribe de mentiroso e congela relações com Colômbia 28/11/2007: Caracas rompe relações com Bogotá 30/11/2007: Colômbia apresenta prova de vida de reféns, incluindo Ingrid Betancourt10/11/2007: Na posse de Cristina Kirchner, na Argentina, líderes latino-americanos reúnem-se para discutir questão dos reféns18/12/2007: Farc anunciam que entregarão três reféns a Chávez sem exigir nada em troca31/12/2007: Após dias de impasse e incerteza, operação de resgate de reféns é suspensa

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