Sem reforma radical, BBC acaba, diz dirigente

Presidente da Fundação BBC afirma que escândalos, dois envolvendo figuras da rede nas últimas semanas, abalam confiança que britânicos têm na emissora

LONDRES, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2012 | 02h06

No centro de dois escândalos, num intervalo de poucas semanas, a emissora britânica BBC está condenada a acabar a não ser que passe por uma "reforma total, estrutural e radical", afirmou Chris Patten, presidente da Fundação BBC.

No sábado, o diretor-geral da emissora, George Entwistle, pediu demissão depois de o programa Newsnight a admitir que havia erroneamente envolvido um ex-tesoureiro do Partido Conservador em um caso de abuso sexual de crianças, numa reportagem transmitida no dia 2. O caso se soma ao escândalo que envolve o apresentador Jimmy Savile, morto no ano passado, acusado de abusar de mais de 300 crianças.

Patten - figura respeitada do Partido Conservador e o último governador britânico de Hong Kong - disse que se a BBC quiser resistir à pressão de rivais, como o império de mídia de Robert Murdoch, precisa recuperar a credibilidade. "A base da BBC neste país é a confiança que as pessoas depositam nela", afirmou. "Se a BBC perder isso, acabou."

Ele descartou a hipótese de renunciar também ao cargo.

George Entwistle estava no cargo havia 54 dias. No dia 2, o Newsnight levou ao ar depoimento de um homem que afirmava ter sofrido abuso sexual nos fim dos anos 1970. O nome do suposto autor do crime não foi divulgado no programa. Mas na internet, rapidamente, ele foi identificado como o político conservador Alistair McAlpine.

Uma semana depois, na sexta-feira, o acusador veio a público afirmar que havia identificado erroneamente o político como o autor do abuso. E pediu desculpas oficiais a McAlpine.

O programa admitiu que não confrontou a vítima com uma foto de McAlpine e não procurou o suposto agressor antes de a reportagem ir ao ar. O político, aliado próximo da ex-premiê Margaret Thatcher, deu sinal de que deve processar a emissora.

Entwistle admitiu, no noticiário matinal, que não sabia - e nem perguntou - qual era a identidade do autor do abuso até que o nome de McAlpine fosse apontado nas redes sociais.

A BBC, que celebra neste ano seu 90.º aniversário, tem 22 mil funcionários trabalhando em 8 canais de TV, 50 rádios e uma extensa operação online.

Entwistle assumiu o cargo de diretor-geral quando Mark Thompson saiu para ser executivo-chefe do New York Times - dias antes da eclosão do escândalo Savile.

Uma das figuras mais proeminentes da BBC, o apresentador do Newsnight, Jeremy Paxman, criticou a chefia da emissora e afirmou que o orçamento dos programas foi cortado. "Entwistle foi derrubado por covardes e incompetentes", disse Paxman.

Patten concorda que as estruturas da empresa estão inadequadas. "Aparentemente, as decisões sobre a transmissão deste programa passaram em cada uma das malditas camadas de gerenciamento, burocracia e checagem desta empresa -, e mesmo assim passou", disse. "Uma das piadas que fiz, e na realidade não tem graça nenhuma, quando vim para a BBC era a de que havia mais líderes veteranos aqui do que no PC Chinês." / AP

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