Sem resgate

Em 13 de fevereiro, o presidente François Hollande recebeu no Palácio do Eliseu famílias de franceses reféns da filial da Al-Qaeda no Norte da África. Ele lhes disse que, de agora em diante, o Estado não só rejeitará qualquer transação financeira com sequestradores, como se oporá à entrega de dinheiro pelas famílias de reféns, seus empregadores ou companhias de seguro. Comunicar semelhante decisão a pais, cônjuges, filhos de uma pessoa detida há meses por assassinos não foi uma tarefa fácil.

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2013 | 02h07

Foi ainda mais temerária porque um grande número desses prisioneiros se encontra no Mali, na região onde o Exército francês trava há dois meses uma guerra implacável contra os homens da Al-Qaeda, os sequestradores.

Desde o começo dessa guerra, o destino desses reféns fez Paris tremer. Algumas autoridades rejeitavam abrir hostilidades que poriam em perigo ainda maior os franceses detidos pela Al-Qaeda. A escolha foi finalmente feita, em janeiro, no dia em que os bandos "terroristas" se iniciaram o assalto à capital do Mali, Bamako. Nesse dia, a França enviou aviões e soldados ao Mali.

Essa guerra levou ao ápice as angústias das famílias de reféns. Sua cólera é compreensível. Esses ataques aéreos, essas operações de comandos são uma ameaça direta às vidas dos reféns.

Como explicar a mudança de posição de Paris? Até aqui, a doutrina era a seguinte: oficialmente, não se gastaria nenhum euro com reféns; na realidade, sempre se pagava. Essa prática ambígua tinha dois aspectos perversos: com o dinheiro obtido, os bandidos compravam armas que serviriam contra as tropas francesas. Outra consequência, talvez pior: os terroristas, que também são traficantes e bandidos, multiplicavam a captura de reféns. Aliás, a França é a principal fornecedora mundial de reféns. Só na África, são 16 (ao menos). Um jihadista disse outro dia: "Quando precisamos de dinheiro para armas, vamos ao mercado. Fazemos alguns reféns aqui e ali".

Nos outros países, as regras variam. Mas EUA e Grã-Bretanha não negociam jamais por seus reféns. A lei britânica determina que é ilegal até mesmo uma empresa privada entregar o dinheiro. Nos EUA, isso pôde ser feito: o New York Times pagou para libertar um de seus jornalistas, David Rohde, sequestrado em 2009.

A falta de uma doutrina universal sobre o tema é um problema. O mundo livre não opõe um escudo único e implacável aos crimes dos malfeitores. É por isso que muitos países desejam que a comunidade internacional adote uma "mesma religião", para que os terroristas saibam que sua indústria está condenada, fatalmente, a definhar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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