Sem rivais viáveis, Netanyahu mantém favoritismo

Discretamente, a Casa Branca torce para que o beligerante líder israelense não vença a eleição de janeiro

NATAN B., SACHS, FOREIGN POLICY, É ESPECIALISTA EM QUESTÕES ISRAELENSES DA BROOKINGS , INSTITUTION, NATAN B., SACHS, FOREIGN POLICY, É ESPECIALISTA EM QUESTÕES ISRAELENSES DA BROOKINGS , INSTITUTION, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h05

Análise

É um dos segredos mais bem guardados por Washington: o governo de Barack Obama prefere que o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, perca as eleições de janeiro. Netanyahu não apenas é muito beligerante nas questões palestina e do Irã, na avaliação da Casa Branca, como tem o fardo adicional de uma difícil relação pessoal com Obama - cimentada por seu claro apoio a Mitt Romney na eleição presidencial dos EUA.

Na teoria, uma derrota de Netanyahu não está fora das possibilidades. Ele é popular em Israel, mas não é amado, confiável como premiê, mas não reverenciado. Sua liderança nas pesquisas é constante - essencialmente intacta desde que ele assumiu, em 2009 -, mas não esmagadora. Ele parece ter sofrido um pouco com o resultado dúbio da recente ofensiva em Gaza. Mas, se ele perdeu votos, foi para a direita e não do centro, o que significa que seu bloco eleitoral permanece inalterado. Entre seus maiores trunfos está a falta de alternativas viáveis: os líderes dos dois maiores partidos da atual oposição são muito impopulares (Shaul Mofaz, do Kadima) ou muito inexperientes (Shelly Yacimovich, do Partido Trabalhista) para desafiá-lo de forma crível.

Não é de admirar, portanto, que os olhos tenham se fixado em potenciais novos participantes na arena política - ou, como é frequentemente o caso na política israelense, participantes reciclados. O retorno do ex-premiê Ehud Olmert foi o mais esperado desses terremotos políticos: apenas quatro anos depois de deixar o cargo acusado de corrupção, Olmert parece ser o único desafio sério para Netanyahu. Na verdade, porém, sua chance de derrotar Netanyahu permanece menor do que Washington gostaria que fosse.

A candidatura de Olmert, no entanto, é viável. Primeiro, ele tem seriedade e experiência que nenhum outro líder da oposição oferece. Apesar do seu governo ter sido marcado por críticas sobre sua liderança na guerra do Líbano em 2006, ele continua a ser um dos líderes mais experientes no sistema político israelense. Em contraste com outros líderes da oposição - jornalistas que se tornaram políticos como Yacimovich ou Yair Lapid do recém-formado partido Yesh Atid (Há um Futuro) - ele pode desafiar Netanyahu com mais credibilidade.

Olmert também pode usar sua experiência em relações internacionais para tirar proveito das vulnerabilidades eleitorais de Netanyahu. Olmert manteve uma estreita relação com os EUA durante seu mandato, uma clara deficiência de Netanyahu na sequência da reeleição de Obama. Ao lidar com o programa nuclear iraniano, Olmert teria confiança e apoio de muitos nas instituições de segurança, em contraste com a quase revolta por vários chefes de segurança anteriores com Netanyahu.

Ao contrário de Netanyahu, Olmert oferece uma visão clara para tentar resolver o conflito palestino-israelense, e negociou a sério com o líder palestino, Mahmoud Abbas. Embora seja altamente cético quanto às possibilidades de paz no futuro próximo, o público israelense continua a apoiar, em teoria, uma solução de dois Estados.

Tudo isso pode ser verdade, mas de nada adianta se Olmert não tiver uma maioria na Knesset (Parlamento). O segundo argumento para a candidatura de Olmert tem sido, portanto, que só ele tem a capacidade de forjar alianças pós-eleitorais com os membros da coalizão de direita de Netanyahu.

É verdade que Olmert, um político de charme e inteligência consideráveis, mantém relações estreitas com muitas figuras que estão agora no campo de Netanyahu. Um deles é Aryeh Deri, um líder do partido ultraortodoxo Shas, que voltou para a política depois de cumprir pena de prisão por corrupção. Outro é o chanceler Avigdor Lieberman - um líder de retórica inflamada, quase xenófobo, mas que parece pragmático em algumas questões de fundo. Ambos se juntaram a coalizões de centro no passado, e alguns pensam que Olmert os poderia atrair para longe da coalizão de Netanyahu.

Mas enquanto as habilidades políticas de Olmert o distinguem de outros líderes da oposição, elas não lhe fornecem um caminho para a vitória por si só. Existem importantes obstáculos políticos na divisão dos aliados de Netanyahu: Deri, por exemplo, divide as ações de liderança do seu partido com o ultrabeligerante Eli Yishai, e a palavra final no Shas pertence ao rabino Ovadia Yosef, o patrono de 92 anos do partido. O eleitorado do Shas, além disso, é firmemente de direita e claramente prefere Netanyahu a qualquer candidato centrista. Tampouco Lieberman optaria por um governo centrista se dada a escolha, como ele mesmo provou ao formar uma aliança pré-eleitoral com Netanyahu. Tanto para o Shas, quanto para Lieberman, uma coalizão centrista só seria palatável se uma coalizão de direita for numericamente impossível. Em outras palavras, para ganhar na construção de uma coligação pós-eleitoral, Olmert teria de vencer Netanyahu nas urnas.

O terceiro e último argumento em favor da candidatura de Olmert é que ele poderia roubar votos de eleitores da direita moderada. Há alguma lógica para a ideia: dada a mudança de Netanyahu para a direita por meio da aliança eleitoral com Lieberman e a lista muito à direita produzida na semana passada nas primárias de seu partido, o Likud, não parece ter espaço no centro para um desafio sério. Se os eleitores moderados acharem a mudança do Likud para a direita muito desagradável, podem preferir um moderado como Olmert.

De fato, se Olmert pudesse atrair um número suficiente de eleitores de direita para o centro, trazendo o bloco de Netanyahu para abaixo de 60 membros do Knesset (do total de 120), todas as apostas estariam fora do processo de formar coalizões.

Mas se Olmert anunciar a intenção de concorrer seus problemas legais ainda podem voltar a assombrá-lo. O Ministério Público anunciou que recorrerá de sua absolvição parcial. A decisão do tribunal sobre um caso de corrupção em separado contra ele ainda está pendente, o que provavelmente se configuraria como um desafio legal para sua nomeação como premiê, mesmo que ele ganhe as eleições.

Yacimovich já atacou Olmert nessa frente, dizendo que quem apoia seu retorno político "apoia a destruição do sistema".

Netanyahu, em outras palavras, mantém-se como favorito para liderar o próximo governo. E ainda assim, apesar dos obstáculos, Olmert está ansioso para voltar ao jogo político. Ele conhece bem a regra fundamental da política israelense articulada por Ariel Sharon - um ministro de Defesa desonrado que escalou seu caminho de volta para o topo da liderança de Israel. A política israelense, Sharon observou, é como uma roda gigante: às vezes você está no topo e, às vezes abaixo, mas o truque é ficar na roda. O próprio Olmert, deve-se lembrar, ascendeu à chefia do governo em circunstâncias improváveis, quando o cargo foi imposto a ele depois que um AVC debilitou Sharon.

Aqueles em Washington esperando por uma derrota de Netanyahu, no entanto, devem provavelmente se decepcionar.

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