Bloomberg photo by Andrew Harrer
Bloomberg photo by Andrew Harrer

Sem salário, funcionários dos EUA vendem itens pessoais para arrecadar dinheiro

Com governo paralisado há mais de 20 dias e sem previsão de normalização, centenas de milhares de pessoas estão procurando formas alternativas de ganhar dinheiro; estudo diz que 40% dos americanos não têm reserva financeira para emergências

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2019 | 17h13

MORGANTOWN, EUA - Enquanto o governo de Donald Trump não encontra uma solução com os opositores do Partido Democrata para acabar com a paralisação das agências federais - que já passa de 20 dias -, muitos dos centenas de milhares de funcionários que ficaram nesta semana mais uma vez sem pagamento precisam escolher o que podem abrir mão e o que é imprenscindível para suas vidas.

Um funcionário do governo federal dos EUA em Morgantown, na Virgínia Ocidental, usou sua conta no Facebook esta semana para vender ferramentas de solda, deixadas por seu falecido sogro. Outro, um fã de Star Wars em Woodbridge, na Virgínia, fez o mesmo com uma réplica em tamanho real do sabre de luz de Kylo Ren

Um pai solteiro em Indiana criou uma série de anúncio no site de leilões eBay com coisas encontradas em sua casa, incluindo Bíblias, lençóis de jogos da Nintendo e gravatas do Dr. Seuss. "Custa US$ 93,88 no Walmart. Estou pedindo US$ 10", escreveu outro funcionário do governo em um anúncio de uma cadeira de balanço infantil no site Craigslist. "Precisamos de dinheiro para pagar as contas."

Nos Estados Unidos, viver sem reservas financeiras é algo relativamente comum, independente da profissão. Um relatório recente do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, revelou que a maior parte dos americanos tem pouca folga em seus orçamentos: quatro em cada dez adultos dizem que não conseguem US$ 400 em uma emergência sem se endividar ou vender algo, segundo dados de 2017, um ano relativamente próspero para a economia americana.

A paralisação, que começou pouco antes do Natal, surpreendeu muitos funcionários do governo federal e está durando mais do que o esperado. Isso fez com que essas pessoas que estão em casa, sem pagamento, tenham que vasculhar garagens e armários, porões e estantes de livros para encontrar pertences e tesouros pessoais para vender.

"Você tem que olhar sem sentimentalismo para as coisas ao seu redor e decidir o que pode vender para outra pessoa", disse Jay Elhard, em licença do seu trabalho como especialista em mídia no Acadia National Park, no Maine.

Elhard, que trabalha no parque desde 2005, criou um grupo no Facebook para as pessoas comprarem itens de funcionários do governo que estão sem salário. No seu caso, o objetivo é muito simples: juntar dinheiro suficiente para pagar a próxima parcela de sua hipoteca.

A orientação do governo também tem sido de pouca ajuda até agora, disseram alguns trabalhadores. Ninguém em Washington parece saber quanto tempo a paralisação parcial do governo continuará, mas há poucas razões para acreditar que o fim está próximo. 

Enquanto isso, o Escritório de Administração e Orçamento forneceu conselhos esparsos e encorajou os trabalhadores a procurarem seus credores e as companhias hipotecárias antes que as dívidas vençam. 

Nesta semana, a Guarda Costeira publicou uma série de dicas sugerindo que os funcionários realizem espécies de brechós em suas casas (as famosas garage sales, em inglês) ou vendam coisas online, se ofereçam para passear com cachorros ou cuidar de crianças.

"Falência é a última opção", diz o material da Guarda Costeira. "Embora possa ser desconfortável lidar com fatos difíceis, é melhor evitar a reação de 'esconder a cabeça na areia'", diz o documento. "Fique no comando da situação ao entender claramente o que está acontecendo."

O documento, no entanto, foi removido do site da organização depois que o jornal The Washington Post questionou seu conteúdo. "(As sugestões) não refletem os esforços atuais da Guarda Costeira para apoiar a nossa força de trabalho durante esse período", disse Scott McBride, porta-voz da organização. "Portanto, esta orientação foi removida."

Quando questionado sobre as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores sem salário, o presidente Donald Trump disse que os funcionários federais "estão do seu lado".

"Se você olhar nas redes sociais, muitas dessas pessoas estão dizendo: 'está muito difícil para mim, para minha família, mas presidente o senhor está fazendo a coisa certa. Continue assim'. Eles são patriotas", afirmou o republicano.

Anna Cory, uma bibliotecária em Morrisville, Carolina do Norte, que trabalha de forma terceirizada para a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês), promove a venda de itens pessoais no Facebook, onde ela se desfaz de livros raros dos anos 1800. 

"Como bibliotecária, é isso que eu valorizo, é o meu tesouro. Dói me desfazer dessas coisas", disse Anna. "Alguns amigos disseram que gostariam de comprar meus itens para depois poderem devolvê-los para mim, mas nem sempre isso é viável."

Se a paralisação do governo continuar na próxima semana, ela será a mais longa da história dos Estados Unidos, superando os 21 dias nos quais o governo de Bill Clinton ficou parcialmente interrompido entre dezembro de 1995 e janeiro de 1996.

Para alguns trabalhadores, as intermináveis brigas e turbulências políticas em Washington acabaram com qualquer sensação de estabilidade que eles sentiam por trabalhar para o governo federal. Joseph Simeone, um inspetor de segurança da Administração Federal de Aviação da Virgínia, disse que foi parcialmente atraído para seu cargo por causa da segurança no emprego. Agora ele sente que a incerteza é uma "ameaça constante".

"Não tenho muita fé de que isso será resolvido, mesmo se eles financiarem o muro ou se o presidente acabar permitindo o financiamento que foi proposto", disse Simeone. "Nós provavelmente vamos ter que passar por isso novamente no futuro. Estou começando a pensar em tentar a sorte no mercado privado novamente."

Faltando poucos anos para se aposentar, Simeone, de 53 anos, está se candidatando ao seguro desemprego e para trabalhos de meio período montando móveis. Enquanto isso, está vendendo coisas no Craigslist: duas guitarras, um amplificador, uma mesa de massagem e sua televisão. Ele ainda não muito, mas isso é tudo o que ele tem para oferecer.

Em e-mails e mensagens de texto trocadas com colegas de trabalho, Simeone diz perceber que todos estão com o mesmo sentimento de abandono. Em tom de brincadeira, alguns se ofereceram para construir o muro eles próprios se isso acabar com a paralisação. Outros tentam aproveitar o tempo livre para viver mais de forma mais calma, ler ou malhar. À noite, Simeone disse que se esforça para dormir, consumido pela preocupação com o que está por vir.

"Eu tenho US$ 24 em dinheiro, não uso cartões de crédito e tenho US$ 2,40 em minha conta bancária", disse ele. "Se não recebermos salário mais uma vez, estarei completamente falido." / THE WASHINGTON POST

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