'Sem surpresas, caminhamos para uma a aliança Bersani-Monti'

Se o Partido Democrático vencer, precisará de uma coalizão para ter maioria sólida no Senado; atual premiê é a melhor opção

Entrevista com

PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h06

Sem pesquisas eleitorais na Itália nos últimos 15 dias, a campanha chega ao seu dia decisivo como uma grande incógnita. Antes líder com mais de 15 pontos porcentuais de vantagem, Pier Luigi Bersani não tinha mais do que 4 pontos sobre Silvio Berlusconi, segundo os prognósticos. Ainda assim, a tendência é de vitória do Partido Democrático (PD), o que marcaria o retorno da esquerda ao poder na Itália. Para o cientista político italiano Manlio Cinalli, pesquisador e professor do Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof), de Paris, um governo de coalizão de centro-esquerda, com a participação - direta ou indireta - do atual primeiro-ministro italiano, Mario Monti, é o cenário mais provável. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A campanha de 2013 vai além do confronto entre Bersani e Berlusconi?

É uma campanha clássica, à italiana, na qual todos os candidatos tentam demarcar suas posições. Há muito da bipolaridade típica do cenário político da Itália, com a esquerda representada por Bersani e a direita por Berlusconi. Mas, além disso, desse cenário clássico, a novidade é o centrismo de Mario Monti e o fenômeno Beppe Grillo, que é bem mais do que o representante de um partido marginal. Ele é um candidato antissistema que tende a receber pelo menos 15%, 18% dos votos.

A economia, a crise e o desemprego foram temas preponderantes, mas houve uma forte dose de populismo na disputa, não?

Sim, os temas se concentram na economia. Os partidos de esquerda, liderados por Bersani, falaram mais de orçamento, mas defendendo uma forma mais igualitária de controle de gastos. De outro, Berlusconi foi muito enfático na questão dos impostos. Por isso, um dos grandes temas dessa campanha foi o imposto patrimonial, que não existia na Itália, foi criado por Mario Monti e Berlusconi promete anular, restituindo o dinheiro que foi arrecadado pelo governo. É uma promessa populista que leva alguns eleitores a considerá-lo louco, porque em um momento de crise e de desemprego ele fala de um imposto que incide mais sobre os mais ricos. Já Grillo faz uma campanha unicolor, batendo muito na politicagem. As pessoas estão revoltadas com os políticos e a política.

Grillo é visto por muitos como um populista. Qual sua opinião?

Grillo é claramente populista e também faz promessas bizarras. Mas Berlusconi também é populista e até Monti, que é o contrário do populista clássico, tem feito algumas promessas que soam populistas. O populismo de Grillo é diferente, porque lhe falta ideologia. Ele não aborda os temas clássicos da extrema direita ou da extrema esquerda. Grillo é muito tranquilo, por exemplo, quando fala sobre a imigração. Por isso é um populista que não tem um programa político identificado com nem com a esquerda, nem com a direita - o que para alguns críticos quer dizer alguém vazio.

Apesar de ser o favorito, Bersani não fez uma campanha arrebatadora.

Não. A impressão que tenho é que ele jogou o jogo do candidato que lidera e observa os adversários. Berlusconi e Monti atacaram-se muito, e Bersani se preservou. Para seus críticos, ele demonstrou apatia e falta de comando. Para seu partido, Bersani jogou muito bem. O que é certo é que ele não quis se expor, não por medo ou fraqueza, mas por tática. Veremos em dois dias se foi certa ou errada.

Bersani e Monti sinalizaram uma aliança, embora ambos a desmintam em público. O que se pode esperar desse governo de coalizão?

Na verdade, Bersani já disse abertamente que quer governar com Monti. É um problema a administrar, pois há setores mais à esquerda do Partido Democrático que são contrários. Mas ainda assim é bastante provável que estabeleça essa aliança. Na Câmara dos Deputados não haverá problema, porque o PD deverá ter a maioria, mas no Senado será necessário contar com uma maioria sólida e, para tanto, a coalizão com Monti será a escolha mais provável. Se Grillo obtiver mais de 20% dos votos e Berlusconi for muito bem e Monti for muito mal, isso pode mudar. Mas caso não haja surpresas durante a eleição, caminhamos para a aliança Bersani-Monti.

Muito se falou do futuro de Monti como ministro da Economia, presidente da Itália ou presidente do Conselho Europeu. Qual é o seu destino mais provável?

Depende de seu resultado na eleição. Se ele fizer um bom escore, acima de 12% dos votos, poderá ter um bom poder de barganha para com Bersani. Não acredito que ele possa almejar o cargo de presidente da república. Suas chances se esgotaram um pouco com essa campanha. Mas se ele fizer um escore muito ruim, tenderá a ser esquecido. E então Grillo será o novo pivô da vida política do país. Grillo é a pessoa que evita o sucesso de Berlusconi, o que é importante. O futuro de Monti pertence a ele próprio e a seu desempenho eleitoral. / A.N.

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