Sem-terra ameaçam fazenda de brasiguaio

Agricultores paraguaios exigem fim do desmatamento da propriedade para plantio de soja

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

27 de setembro de 2008 | 00h00

Mais de 700 camponeses sem-terra paraguaios formaram um bloqueio ontem na entrada da fazenda do empresário brasileiro Ulisses Teixeira, no distrito de Aguerito, no Departamento (Estado) de San Pedro, a 400 quilômetros a noroeste de Assunção. Os sem-terra ameaçam invadir a fazenda de 22 mil hectares caso o governo do presidente paraguaio Fernando Lugo não suspenda a derrubada da floresta existente na propriedade para plantar soja. Os camponeses também exigem a expropriação de 5 mil hectares da fazenda (quase 25% de sua área total), para que sejam divididos e entregues aos sem-terra.Lideranças camponesas também ameaçam invadir fazendas de brasileiros nos Departamentos de Concepción, de Kanindeyú e de Alto Paraná (na fronteira com o Brasil) - onde se concentra grande parte dos "brasiguaios" (brasileiros que emigraram para o Paraguai nos últimos 40 anos, onde se dedicaram à agricultura). Os líderes sem-terra consideram que as invasões forçarão o governo do presidente Lugo a realizar a reforma agrária que prometeu durante a campanha eleitoral.Os sem-terra de San Pedro argumentam que o desmatamento da fazenda de Teixeira vai causar poluição do solo e dos riachos da região por meio dos herbicidas utilizados para o cultivo da soja. O líder dos sem-terra, Elvio Benítez, da Mesa Coordenadora de Organizações Camponesas (MCNOC), advertiu que ele e seus colegas não permitirão "uma agressão à ecologia".TENSÃOIrritados com a presença de uma bandeira brasileira hasteada na divisa da fazenda de Teixeira, os sem-terra decidiram substituí-la por uma paraguaia.As lideranças camponesas asseguram que não são contra a presença de brasileiros em atividades agrícolas no Paraguai. "Rejeitamos apenas que os brasileiros continuem atropelando nossa soberania e destruam nosso ecossistema", disse Ernesto Benítez, da organização Táva Guarani. "Não vamos permitir que estes 22 mil hectares se transformem em um pequeno território brasileiro dentro do Paraguai."A fazenda de Teixeira - adquirida em dezembro do ano passado - está na mira dos sem-terra de San Pedro há meses. Em maio, duas semanas depois da eleição de Lugo, que conta com sem-terra entre sua base eleitoral, 150 camponeses realizaram um inesperado desfile na frente da porteira. Usando facões, eles queimaram uma bandeira brasileira.REVISÃOAlberto Alderete, presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert), afirmou que o governo Lugo já começou o processo administrativo para revisar e identificar mais de 7 milhões de hectares entregues de forma irregular (muitos dos quais não contam com certidões de propriedade) durante a ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-89).Segundo Alderete, nesse período - e também desde a volta da democracia - foram concedidos mais de 12 milhões de hectares de terra, dos quais 7 milhões de forma irregular. Parte dessas terras foi entregue a brasileiros, afirmam os sem-terra paraguaios.

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