Vincenzo Pinto/AFP
Vincenzo Pinto/AFP

'Sem turismo, Veneza é uma cidade morta', lamenta gondoleiro

Na Itália, a indústria do turismo representa 13% do PIB e 15% dos empregos; na Cidade dos Doges, esse percentual é ainda maior, com sua economia quase toda dependente deste setor

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2020 | 04h00

VENEZA - Na famosa Praça de São Marcos, na Itália, até os pombos desapareceram depois do coronavírus, na ausência de turistas do mundo inteiro que os alimentavam todos os dias.

"Sem turistas, Veneza é uma cidade morta", lamenta Mauro Sambo, um gondoleiro de 66 anos que, desde 1975, oferece passeios pelos canais do "Sereníssima".

"Mesmo que levantem o confinamento, quem quer sair de gôndola? Somente estrangeiros, moradores, não", reconhece esse homem elegante, de barba aparada, enquanto limpa sua gôndola em frente ao Palácio Ducal. 

A atmosfera crepuscular e o silêncio ensurdecedor também reinam no Grande Canal, onde circulam apenas os "vaporetti", os ônibus aquáticos.

Todos os suntuosos palácios que revestem as duas margens, os quais abrigam instituições culturais e hotéis de luxo, têm suas janelas fechadas.

Na Itália, a indústria do turismo representa 13% do PIB e 15% dos empregos. Na Cidade dos Doges, esse percentual é ainda maior, com sua economia quase toda dependente deste setor. 

"Cerca de 65% da população trabalha no turismo", diz a responsável pelo setor na prefeitura, Paola Mar, em entrevista à AFP.

"O impacto do coronavírus tem sido muito forte, pois 85% dos turistas que visitam Veneza são estrangeiros", enfatiza, diante de uma das piores crises de sua história recente. 

Até a União Europeia teve de pedir a seus membros na quarta-feira que abram suas fronteiras internas para evitar o colapso do setor de turismo. 

"Começamos a receber pedidos para saber quando e como se pode vir", diz Paola, com um tom otimista.

"Uma cidade aberta ao mundo"

"Nós sobrevivemos às guerras, porque, na verdade, é uma guerra, então também sairemos dela, graças ao nosso espírito empreendedor", afirma Francesco Pecin, empresário da construção civil de 47 anos, enquanto caminha perto da Ponte dos Suspiros. 

Pecin reconhece que está "assombrado" diante dos canais desertos. 

"Não existem mais venezianos legítimos, apenas hotéis e apartamentos para alugar", lamenta.

Uma análise compartilhada por Enrico Facchetti, joalheiro de 61 anos, que passeava com o cachorro perto da Basílica de São Marcos.

"A cidade vive de uma monoeconomia baseada no turismo. Pode ser um erro, mas não temos outra opção. Sem turistas, não vamos sair dessa!", desabafa.

"Historicamente, Veneza sempre foi uma cidade cosmopolita aberta ao mundo. Olhe para esta basílica! É de estilo bizantino. Os cavalos de bronze na fachada vêm de Constantinopla", conta ele. 

No centro histórico de Veneza, moram apenas 52.000 habitantes, de um total de quase 260.000, e o êxodo para terra firme continua, devido ao menor custo de vida e ao desejo de mais conforto.

O bairro de Cannareggio, entre os menos turísticos, é um pouco mais animado: os moradores saem de máscara e luvas, fazem fila em frente a bares, supermercados e padarias. 

E, embora poucos moradores falem sobre isso, viver com turistas nem sempre foi sereno.

A pressão do setor de turismo no mercado imobiliário é notável: além de transformar os apartamentos em residências temporárias para turistas por meio da plataforma Airbnb, as instalações que abrigam atividades artesanais também são cobiçadas. 

Na ilha de Murano, famosa por suas fábricas de vidro, "eles estão transformando uma vidraria em um restaurante-hotel", diz o empresário Dimitri Tiozzo, de 53 anos.

"Não se faz mais nada artesanalmente", desabafa. 

A fuga de turistas em Veneza começou, na verdade, antes mesmo da propagação do vírus.

"Estamos sofrendo desde novembro", diz Paola Mar, devido às inundações incomuns causadas pela maré alta, que puseram em crise o criticado turismo de massa. /AFP

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