Sem um plano para a Europa

Continente está sem um roteiro de medidas concretas que possam ser efetivas para tirá-lo de sua profunda crise

O Estado de S.Paulo

28 Maio 2012 | 03h05

Outra cúpula internacional chegou e partiu sem decidir sobre ações coordenadas que seriam vitais para reanimar uma economia europeia enferma.

Diante de uma crise cuja solução exige uma intervenção, como no crash de 2008, o comunicado do G-8 dias atrás foi rico em palavras e pobre em ações.

Não sugeriu medidas concretas, menos ainda um plano para respaldar os apelos públicos ao crescimento. E, embora a reunião do G-20 no México no próximo mês possa oferecer uma segunda chance para uma ação coordenada, não há evidências de algum planejamento prévio para semelhante iniciativa.

Essa fracasso de mais uma reunião internacional tem origem num erro fatal de diagnóstico. Desde o início, os líderes da Europa insistiram em que enfrentamos uma crise da dívida pública; que sua solução é austeridade, e se essa solução não está funcionando é porque não tivemos suficiente austeridade.

Mas o problema da Europa não é apenas o problema unidimensional que eles descrevem. A Europa enfrenta também uma crise nos fundamentos de seu setor bancário, e outra crise na fraqueza do crescimento econômico e da competitividade que afeta cada país do continente (com exclusiva exceção da Alemanha).

A propensão da Europa a se iludir ficou visível há quatro anos quando, no início da crise financeira global, líderes europeus se convenceram de que seu sistema financeiro era basicamente saudável, mas havia sido a infeliz vítima da loucura anglo-saxônica.

Na primeira reunião de líderes da zona do euro, em outubro de 2008, minha afirmação de que os bancos europeus estavam mais perigosamente alavancados que os bancos americanos, dependentes do financiamento de mercado de curto prazo e sobrecarregados por arriscadas hipotecas subprime adquiridas dos Estados Unidos, foi recebida com ceticismo, com incredulidade até.

Mas como a Europa empreendeu apenas uma fração - um oitavo - do que os EUA fizeram para recapitalizar seu sistema financeiro e dar baixa de ativos podres, seus bancos ainda estão envenenados por seu alto nível de endividamento (os bancos alemães continuam alavancados 32 vezes o seu tamanho, e os bancos franceses, 26 vezes).

Os bancos espanhóis, aliás, precisam hoje de até 100 bilhões de recapitalização mesmo antes de lidarmos com pressões semelhantes de bancos na Itália e mesmo na França. E com os bancos agora incapazes de oferecer boas garantias para seus empréstimos, o bote salva-vidas de 2012 - 1 trilhão de apoio do Banco Central Europeu (BCE) - poderá ser esvaziado em breve.

O espectro de corridas incontíveis aos bancos pairará sobre tudo, até que haja alguma ação decisiva.

Década de estagnação. A cada dia vemos uma nova abdicação de responsabilidade: a incapacidade de dar conteúdo a um plano para o crescimento para proteger a Europa - já em sua segunda recessão - do que poderá ser uma década de estagnação.

A produção europeia já está encolhendo de seus níveis pré-recessão: de 20% da produção mundial para projetados 11% no espaço de uma década. Mais preocupante, somente 2% das exportações da Europa vão atualmente para a China, e um total de apenas 7,5% dos bens e serviços europeus vão para Índia, Brasil e outros mercados emergentes que são responsáveis por 75% do crescimento global.

Pode parecer estranho propor que o segundo continente mais rico do mundo agora precise de ajuda global para sair de um buraco econômico.

Mas nós sabemos que os consumidores europeus de hoje estão muito receosos de gastar e que o investimento europeu está capengando na medida que os bancos estão se desacelerando com maior rapidez do que em qualquer outra época da história recente.

Pior ainda, membros da zona do euro não podem mais depender de medidas pró-euro - ajustes monetários, aumento da oferta monetária e cortes de taxas de juros que encorajam o crescimento - para impulsionar suas economias nacionais.

Evidentemente, na próxima reunião do Conselho Europeu se chegará a um acordo do que será chamado de "uma estratégia de crescimento" - um reforço de 10 bilhões para o European Investment Bank, um fundo de infraestrutura continental, reformas estruturais para liberalizar mercados, e, possivelmente também, a introdução de limites de déficit ciclicamente ajustados.

Mas essas medidas tomarão muito tempo ou serão muito pequenas para dar um impulso suficientemente grande para o crescimento neste ano e no próximo.

A verdade intragável é que os países europeus já não podem se salvar da estagnação sem ajuda internacional. O que deveria ter havido no G-9 - e precisa ocorre no G-20 no próximo mês - é uma resposta global coordenada que ajudasse decisivamente a Europa a enfrentar os dois elementos da crise que estão sendo ignorados.

Primeiro, enquanto seus bancos são reestruturados, o mundo precisa sustentar a economia da Europa com a ajuda de uma parede corta-fogo suficientemente forte para isolar Espanha, Itália e outros países.

Agora que a Grécia trouxe o continente para sua hora da verdade, uma reengenharia financeira é um prerrequisito para a sobrevivência do euro.

Mas o fundo de estabilidade da Europa de cerca de 700 bilhões, mesmo que respaldado pelo FMI, não é grande o bastante para persuadir o restante do mundo de que a Europa pode enfrentar as tempestades futuras.

Um muro de proteção maior é necessário agora que a Europa analisa novamente um plano francês para a criação de eurobônus, avalia a proposta da Itália de um sistema de seguro de depósitos em nível europeu, e combate uma fuga de capitais de sua periferia.

Segundo, para dar peso à iniciativa de crescimento europeu, o G-20 precisa retornar ao primeiro pacto de crescimento global, acordado pela primeira vez em Londres e Pittsburgh em 2009.

Dez anos atrás, o consumidor ocidental podia impulsionar a economia mundial. Daqui a 10 anos, será o consumidor asiático que impulsionará o crescimento.

O G-20 deveria planejar o reforço do crescimento global total acelerando a abertura dos mercados asiático e sul-americano. Também deveria procurar apoio do FMI para ajudar a negociar um acordo pelo qual a China criaria mais demanda global, aumentando os gastos de consumo, e a Índia abriria mais seus mercados às importações.

Em troca, Estados Unidos e Europa deveriam acelerar o investimento de capital em infraestrutura, o que tranquilizaria a Ásia sobre o compromisso do Ocidente com o crescimento. Um pacto de crescimento poderia tornar o Ocidente confiante de que pode se beneficiar do impulso liderado pelas exportações para o Leste, e deixá-lo confiante de que pode haver uma demanda revitalizada no Ocidente.

O mundo inteiro se beneficiará - e nós teremos ajudado a tirar a Europa da beira do abismo. A alternativa - uma década perdida de desemprego e estagnação europeus - pode e precisa ser evitada. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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