Reprodução de TV/AFP
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Sem apoio, May adia votação do Brexit no Parlamento e vê cargo ameaçado

Em pronunciamento à Câmara dos Comuns, premiê diz que maior obstáculo para a aprovação do acordo é o tratamento dado à fronteira entre as duas Irlandas quando o Reino Unido deixar a UE 

O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2018 | 14h31
Atualizado 10 de dezembro de 2018 | 23h01

LONDRES - Para evitar uma derrota humilhante no Parlamento, a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, desistiu nesta segunda-feira, 10, de levar à votação o acordo do Brexit. A medida aumentou a pressão sobre ela, assim como o risco de May deixar o cargo em razão da incerteza sobre a capacidade de seu governo acertar os termos do divórcio com a União Europeia até março – data-limite para o acordo. 

Em pronunciamento à Câmara dos Comuns, May disse que o maior obstáculo para a aprovação do acordo – contestado dentro do próprio partido da premiê – é o tratamento dado à fronteira entre as duas Irlandas quando o Reino Unido deixar a UE. 

O foco do governo nos próximos dias será esclarecer as dúvidas envolvendo o “backstop” – mecanismo que manterá a Irlanda do Norte nas regras aduaneiras da UE mesmo que o bloco e o Reino Unido não cheguem a um acordo final sobre a fronteira com a Irlanda. “Estou determinada a fazer o que estiver ao meu alcance para esclarecer ao Parlamento o que for necessário para concluir esse acordo”, disse May. 

A falta de consenso em sua coalizão para aprovar o pacto e as deserções de ministros contrários ao acordo fortaleceram a oposição trabalhista. “Esse governo perdeu o controle e está em queda livre”, disse o líder opositor Jeremy Corbyn. 

Com o apoio do Partido Nacionalista Escocês, do Partido Liberal-Democrata e do partido galês Plaid Cymru, os trabalhistas planejam apresentar uma moção de censura contra May “assim que o pedido tiver mais chances de prosperar”. 

Hoje, a oposição teria 307 votos, 13 a menos que a maioria necessária para aprovar a moção. Os trabalhistas acreditam que convencerão os conservadores e o partido norte-irlandês DUP se May não conseguir nenhuma concessão da UE antes de voltar a apresentar o acordo para votação no Parlamento. 

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, assegurou hoje que não haverá concessões no acordo que já foi negociado com o governo britânico, mas está disposto a ajudar o Reino Unido a aprovar o pacto. Na quinta-feira, os chanceleres da UE se encontram para discutir a crise. Alterações no “backstop” são consideradas improváveis, porque o mecanismo funcionaria como uma espécie de seguro para manter a fronteira aberta entre as duas Irlandas, como prevê o Acordo de Paz da Sexta-Feira Santa, de 1998. 

Com a suspensão da votação, a libra esterlina caiu mais de 1% em relação ao dólar e chegou a seu nível mais baixo em 20 meses. 

Indecisão

O futuro de May no cargo é incerto. Sua força tem sido minada por sua incapacidade de manter o gabinete unido para aprovar o acordo do Brexit. Mesmo que a moção de censura da oposição não seja aprovada, ela pode ser derrubada do cargo pelo próprio Partido Conservador, cuja facção mais eurocética é contrária ao acordo do Brexit por considerá-lo favorável demais à UE.

Esse processo, no entanto, levaria várias semanas. May continuaria no cargo, mas sem força política para tocar a negociação do Brexit. Sem a aprovação do acordo, restariam duas opções à premiê: sair da UE unilateralmente, o que traria danos enormes para a economia britânica, ou convocar um novo plebiscito sobre o Brexit, o que, segundo analistas, poderia afetar a crença nas instituições democráticas do país e levar a protestos de rua. 

Hoje, a Corte Europeia de Justiça decidiu que o Reino Unido pode mudar de ideia sobre o Brexit e manter-se na União Europeia. Mesmo enfraquecida no cargo, May continua refratária a qualquer solução que não envolva a aprovação do acordo pelo Parlamento. “Um segundo referendo dividiria o país”, afirmou a premiê. “Eu concluirei o Brexit da maneira que o povo britânico determinou.” / NYT, EFE e AP

PARA ENTENDER 

Existem duas maneiras de a primeira-ministra britânica, Theresa May, deixar o cargo. A primeira alternativa é ela perder o comando do próprio partido. Nesse cenário, ao menos 48 deputados dos 315 que o Partido Conservador tem na Câmara dos Comuns precisam oficialmente pedir que ela deixe o posto. Para sobreviver, May precisa do apoio da maioria da bancada. Caso vença, não pode ter a liderança desafiada por 12 meses. 

A outra alternativa é a moção de desconfiança apresentada pela oposição. Tradicionalmente, a moção é convocada com a frase “Esta Casa não tem mais confiança no governo”. Na atual legislatura, são necessários 320 votos para a moção ser aprovada. A oposição tem atualmente 307 votos. Caso o partido norte-irlandês DUP abandone a coalizão da primeira-ministra, os trabalhistas precisariam do apoio de apenas 3 outros deputados para convocar novas eleições. 

 

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