Semana decisiva na Nigéria

Eleição presidencial adiada após ameaças do Boko Haram deve ocorrer no sábado

VINCENT, NWANMA, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

24 Março 2015 | 02h05

No popular e frenético terminal rodoviário de Oujelegba, na região central de Lagos, na Nigéria, as pessoas se reúnem diante das bancas de jornais para ler as últimas notícias e debater o assunto mais em voga: quem vencerá a eleição presidencial de sábado? Embora a votação seja tema de discussão há meses, as pessoas ainda passam horas debatendo apaixonadamente a mesma coisa.

À medida que a Nigéria entra na reta final de uma campanha que durou meses, o Congresso de Todos os Progressistas (APC, na sigla em inglês), de oposição, está preocupado com o fato de o adiamento da eleição ser vantajoso para o presidente Goodluck Jonathan e o seu Partido Democrático do Povo (PDP).

A eleição estava originalmente marcada para 14 de fevereiro, mas a comissão eleitoral nigeriana adiou a votação para dar tempo ao Exército de repelir os extremistas do grupo Boko Haram, que ameaçavam atacar locais de concentração de eleitores.

As pesquisas mostram que o candidato de oposição Muhammadu Buhari e o presidente Jonathan estão empatados, mas o APC entende que o adiamento beneficia o partido no poder. No seu entender, Jonathan e o PDP estão usando a ameaça do grupo islamista para desacelerar sua campanha e ter acesso a recursos do governo, mantendo suas equipes de campanha trabalhando, enquanto os cofres do APC estão exauridos.

Independentemente dos motivos da comissão eleitoral, Jonathan se beneficiou da decisão. Durante as seis semanas de adiamento, seu governo liderou uma luta aparentemente bem-sucedida contra o Boko Haram.

O general Tobiah Miniman, comandante em chefe do Exército, disse a jornalistas na terça-feira que soldados repeliram os militantes islâmicos de toda a região nordeste, exceto três distritos. Mas não ficou claro como o sucesso militar será traduzido para Jonathan no dia da eleição, especialmente em meio às notícias de que tropas do Chade e do Níger foram responsáveis pela maior parte do combate.

Finanças. Além de perder um pouco o seu ímpeto, o APC também luta para se manter com seus fundos de campanha. Utomi disse que o governo conseguiu incapacitar financeiramente o APC. "A oposição parece estar sem dinheiro." Muitos candidatos estão fazendo o possível para obter mais financiamento - e acusam os candidatos do PDP de usar dinheiro público para bancar suas campanhas. Além disso, temem novos adiamentos.

Para Darren Kew, estudioso especializado na Nigéria da Universidade de Massachusetts, em Boston, o PDP vem usando o dinheiro e o tempo adicional que conseguiu para buscar apoio das autoridades locais responsáveis pela contagem dos votos.

"Isso provavelmente vai contribuir para que alguns Estados indecisos voltem a apoiar o presidente, mas pode não ser suficiente para pôr fim ao avanço do APC", afirmou. "A disputa ainda está longe de se encerrar e provavelmente haverá um segundo turno."

Entre dezembro e fevereiro, o PDP gastou US$ 17 milhões em publicidade e o APC, US$ 7 milhões, de acordo com relatório do Centro de Justiça Social (CENSOJ, na sigla em inglês), organização civil da Nigéria. Segundo Eze Oneykpere, que dirige o CENSOJ, ambos os partidos extrapolaram o limite de US$ 1 milhão estabelecido pela lei eleitoral. Embora o centro tenha pedido à comissão eleitoral para advertir os partidos, os gastos continuaram.

De acordo com Darren Kew, o aspecto mais importante das eleições é o controle dos aparelhos políticos locais que permitem aos partidos alterar os votos em seu favor. "Nesse aspecto, o PDP, com muitos recursos financeiros, poderá fazer a balança pender a seu favor", afirmou.

Lendo um jornal no terminal de Ojuelegba, Daniel Owolabi, formado recentemente, diz que dinheiro não deverá fazer diferença. Ele fez campanha e mobilizou os estudantes da Universidade de Llorin para votarem em Jonathan na última eleição, mas, desta vez, votará em Buhari. "Pela graça de Deus, Buhari vencerá essa eleição." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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