Semelhanças e diferenças

Tanto a Argentina quanto a Venezuela estão em crise, mas Buenos Aires parece estar melhor

PETER, HAKIM, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 Março 2015 | 02h03

O boom da América Latina acabou. Com a redução do ritmo da economia chinesa, o acentuado declínio dos preços das commodities e a queda dos investimentos, o crescimento econômico estagnou em toda a região, e pobreza e desigualdade estão aumentando. Os escândalos políticos aos quais está sendo dada enorme divulgação agrava a situação em muitos países, enquanto os ratings dos títulos continuam caindo. Neste panorama desencorajador, duas nações - Venezuela e Argentina - visualizam futuros particularmente precários.

A Venezuela encontra-se na situação mais desesperada. A queda violenta dos preços do petróleo, que representa 95% das exportações, desencadeou uma crise na balança comercial. Incapaz de pagar os fornecedores, a Venezuela enfrenta escassez crônica de alimentos, remédios, e outros bens de primeira necessidade. Os consumidores passam horas em filas incrivelmente longas. Os preços da energia baixos talvez obriguem a Venezuela ao calote do pagamento da dívida. Dentro em breve, a inflação, já a mais elevada do mundo, poderá ascender acima de 100%. Em apenas dois anos, a moeda venezuelana perdeu 90% do seu valor, e as reservas de divisas estão minguando continuamente. Em 2014, o PIB sofreu uma redução de 3%, e este ano perderá entre 3 e 4%. A corrupção generalizada e a criminalidade, juntamente com a escalada dos conflitos políticos, debilitam ainda mais a economia.

A Argentina também está em recessão. Sua economia sofreu contração em 2014, e este ano provavelmente continuará estagnada. A inflação argentina, hoje em cerca de 40% ao ano, é o triplo da média regional. Apesar das elevadas barreiras comerciais e dos rigorosos controles do câmbio, aumenta a fuga de capitais. Ao mesmo tempo, oficialmente em moratória, a Argentina quase não tem acesso a financiamentos internacionais. A desordem política e os escândalos envolvendo a presidente Cristina Kirchner aumentam a insegurança da Argentina.

Evidentemente, fatores externos são em parte responsáveis pelo descontrole venezuelano e argentino. Mas este é em razão, principalmente, de escolhas políticas equivocadas e da má administração. Buenos Aires subsidiou fortemente indústrias em má situação financeira e intensificou os gastos públicos - usando frequentemente fundos de pensão privados e recorrendo ao Banco Central independente. Também tentou esconder seus fracassos econômicos manipulando os dados sobre inflação e outras estatísticas.

Com receitas petrolíferas aparentemente inesgotáveis, a Venezuela aumentou os gastos militares e financiou programas de combate à pobreza. Além disso, vastas somas de dinheiro foram transferidas para Cuba e a outros governos da mesma tendência a fim de montar um bloco de nações contrário aos EUA - embora a Venezuela também tenha generosamente ajudado pequenos países pobres a pagar suas contas de energia.

A maior loucura do governo é a administração desastrosa da Petróleos da Venezuela (PDVSA). Os campos petrolíferos estagnaram quando a estatal, outrora extremamente bem dirigida, perdeu seus gerentes e técnicos mais experientes. Igualmente dispendiosos foram as compras do controle de empresas, os amplos programas de fixação de preços, e o afastamento dos investidores.

Nos últimos anos, os governos da Venezuela e da Argentina não mostraram muito respeito pelo Estado de direito. Mas o de Caracas é muito mais repressivo, desprezando as próprias leis e a Constituição. O poder é totalmente centralizado na presidência. Os militares agora ocupam vários postos nos altos escalões da burocracia. O Congresso e o Judiciário são controlados pelo Executivo. Os governos estaduais e municipais sofrem intervenções, e autoridades eleitas são destituídas de seu poder. Muitos líderes da oposição estão na cadeia. O jornalismo independente desapareceu em grande parte, em razão da censura, de perseguições e das vendas forçadas de jornais e tevês.

Os argentinos desfrutam de uma gama consideravelmente maior de liberdades, mas o governo de Buenos Aires também conseguiu desacreditar e impor restrições a grande parte da imprensa da oposição, atualmente uma prática comum na América Latina. A presidente Cristina também controla o Legislativo e tenta fazer mesmo com o Judiciário. E acabou com a independência do Banco Central.

Ambos os governos não gostam de fazer acordos. Repetidas vezes entraram em conflito com opositores internos e governos estrangeiros. Entre a Argentina e seus vizinhos e parceiros do Mercosul - Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai - os atritos foram numerosos.

Também se envolveu com a Grã-Bretanha, a Espanha e outras nações europeias, com o Executivo e o Judiciário dos Estados Unidos, com o FMI, o Clube de Paris e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Internamente, o governo combateu a mídia noticiosa, as associações empresariais e de bancos, os produtores agrícolas, sindicatos poderosos, e grupos de direitos humanos (embora, nesta frente, a Argentina tenha feito notáveis avanços).

Os conflitos na Venezuela têm sido mais virulentos e perigosos. Nos últimos anos, o governo venezuelano ameaçou invadir a Colômbia, rompeu as relações com os EUA, e acusou Washington de sabotagem econômica e de conspirar para depor o presidente Nicolás Maduro. O governo enfraqueceu os grupos mais independentes - como partidos políticos, associações empresariais, sindicatos, a mídia e a hierarquia católica.

Apesar de suas deficiências políticas, a Argentina é ainda uma sociedade muito mais aberta e democrática do que a Venezuela. Mas entre os dois países há outras duas importantes distinções a fazer.

O presidente Hugo Chávez era um homem com grandes aspirações. Ele tinha planos grandiosos para a unificação da América Latina, a redução da presença dos EUA da região e sua influência, e para a transformação da Venezuela no modelo do socialismo do século 21. Algumas de suas realizações foram realmente importantes, mas sofreu uma série de revezes econômicos e políticos antes de morrer, em 2013. Seus sucessores não têm a capacidade e os recursos para dar continuidade aos planos ambiciosos de Chávez.

O interesse predominante do governo da presidente Cristina é conseguir exercer o poder político. De fato, como prometeu, ela deu nova ênfase ao desenvolvimento social e aos direitos humanos, mas isso não foi feito com cuidado suficiente para que os programas resultantes pudessem se sustentar. Além de exportar produtos argentinos e conseguir o controle das Malvinas, a diplomacia do seu governo preocupou-se em grande parte em proteger o país de um mundo intrometido e ganancioso.

Mas a principal diferença entre Argentina e Venezuela não é a ambição, mas o fato de que a Argentina dispõe de uma saída da desordem - as eleições presidenciais de outubro. As instituições políticas e econômicas da Argentina têm sido profundamente atingidas e levará tempo, depois de alguns remédios dolorosos, para se recuperarem. Mas elas continuam em seu lugar, e as expectativas praticamente universais são que as eleições se realizarão conforme marcado, com lisura, e a escolha de um novo chefe de Estado.

Na Venezuela, este caminho ainda não é visível. As eleições presidenciais só se realizarão em 2019. Por outro lado, não se sabe ao certo se as eleições parlamentares marcadas para outubro transcorrerão com a devida honestidade - ou mesmo se serão realizadas. Os venezuelanos temem um "autogolpe" do presidente Maduro, com a finalidade de lhe garantir poderes ditatoriais; a tomada do poder pelos militares; a ampliação do conflito e a crescente violência política.

A responsabilidade da saída do atual impasse cabe ao governo Maduro. Evitar a tragédia que se desenrola exigirá uma negociação séria e prolongada com líderes da oposição. Todas as partes terão de fazer consideráveis concessões. Os vizinhos da Venezuela não deveriam manter-se à margem; sua ajuda poderá ser vital. Os líderes da região deveriam transmitir energicamente suas preocupações às autoridades venezuelanas e pressionar para obterem respostas urgentes. Ao contrário da Argentina, é improvável que a Venezuela encontre uma solução por conta própria. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PRESIDENTE DO DIÁLOGO INTERAMERICANO

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