EFE/ Ian Langsdon
EFE/ Ian Langsdon

Sena sobe e deixa Paris debaixo d'água

Rio pode atingir nível mais alto em 100 anos e inundar locais históricos como o Louvre

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2018 | 20h10

Na manhã de terça-feira, um dos funcionários da boate Le Faust, situada sob a histórica Ponte Alexandre III, no centro de Paris, lançou o alerta: “Atenção, tem um rato aqui!” A invasão do roedor em um dos bares mais refinados à beira do Sena foi o indício de que a cheia voltaria a causar prejuízos, dois anos depois de o lugar ter sido destruído pela enchente de 2016.

Em razão do volume recorde de chuvas em dezembro e janeiro, o maior desde 1900, o Rio Sena, que atravessa Paris, pode chegar neste sábado a seu nível mais elevado desde 1910: 6 metros e 10 centímetros. 

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Os dois meses de chuvas intensas – e anormais – deixaram os cais baixos do Sena submersos, prejudicando uma parte do trânsito e interditando a circulação fluvial. Linhas de trens metropolitanos foram paralisadas e estações situadas às margens do rio, invadidas pelas águas. Moradores de barcos tiveram de abandonar suas casas por riscos de incidentes, que incluíram a perspectiva de naufrágios que poderiam ocorrer pelo choque das embarcações com as pontes. 

No Museu do Louvre, um dos mais importantes do mundo, um comitê de crise foi montado para traçar a estratégia de retirada das obras de arte caso o nível do rio continue a subir nas próximas horas. A exposição sobre arte islâmica, que vinha sendo realizada em um dos andares baixos do antigo castelo, foi suspensa até domingo. A organização faz parte do Plano de Proteção contra Inundações (PPCI), que estabeleceu, desde 2002, uma lista de obras a serem transferidas para andares mais altos – 12 metros acima do nível normal do Sena.

Se as instituições públicas estão preparadas, pequenos e médios negócios situados no cais do rio sofrem as consequências. Em junho de 2016, o Faust, então um restaurante de luxo, foi destruído pelas águas. Nada foi salvo: móveis, equipamentos de cozinha, pisos e o revestimento refinado, que fazia referência à Belle Époque, em um prejuízo avaliado em “vários milhões de euros”. 

No início da semana, surpreendidos pela velocidade da cheia, os funcionários do Faust não conseguiram evitar que o pior voltasse a acontecer. “Nós tentamos salvar os móveis, mas foi tarde demais”, explicou um funcionário, que protegeu as pernas com sacos plásticos durante a operação. 

Segundo os serviços de meteorologia da França, a perspectiva é a de que o Sena suba entre 5,8 metros a 6,1 metros hoje. Caso chegue ao nível mais alto do prognóstico, a enchente superará a de 2016, tornando-se a mais grave desde 1910. A situação é causada porque os principais afluentes, os rios Marne, Armançon e Yonne, também enfrentam cheias recordes.

Há 118 anos, uma cheia que elevou o Sena em 8,62 metros deixou a capital debaixo d’água e milhares de pessoas desabrigadas, uma inundação que ainda hoje é lembrada por historiadores, engenheiros e seguradoras. 

No interior do país, quatro departamentos estão em estado de alerta laranja, o segundo mais elevados na escala de advertência de vigilância meteorológica do governo da França. 

 

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