Ronaldo Schemidt/AFP
Ronaldo Schemidt/AFP

Senado da Argentina aprova reforma no Judiciário, que segue para a Câmara

Para opositores, governo vai tirar poderes dos magistrados federais que hoje conduzem os processos contra Cristina e seus aliados

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 19h17

BUENOS AIRES - O Senado da Argentina aprovou na madrugada desta sexta-feira, 28, uma controvertida reforma do seu sistema Judiciário, em meio a protestos e críticas da oposição que diz que a proposta tem o objetivo de livrar a vice-presidente Cristina Kirchner de seus processos por corrupção. A matéria agora segue para a Câmara, que tem maioria opositora.

O projeto, de autoria do presidente Alberto Fernández, cria mais tribunais criminais na capital do país e ainda mais nove câmaras de apelação e 60 tribunais federais no interior. 

De acordo com opositores, ao pulverizar os juizados em Buenos Aires, o governo vai tirar poderes dos magistrados federais que hoje conduzem os processos contra Cristina e seus aliados. A proposta foi aprovada após mais de 10 horas de intensos debates por 40 votos a favor e 26 contra. 

Na Câmara, que tem maioria opositora, o projeto sofre resistência. Em entrevista ao canal A24, o presidente da Casa, Sergio Massa, afirmou que a tramitação da reforma pela Câmara “vai demorar muito mais do que no Senado”, embora diga que confia que a matéria será aprovada antes do fim deste ano.

“O Senado tem um tempo diferente da Câmara dos Deputados, que abre espaço para a opinião de associações, especialistas. Já temos pedidos de 41 expositores. Será uma discussão mais longa do que no Senado”, disse Massa.

Manifestantes se mobilizaram durante todo a quinta-feira para pressionar os senadores a rejeitarem a matéria. Muitos carregavam faixas com os dizeres “impunidade K”, se referindo à Cristina, que também conduziu a sessão no Senado – no país, o vice acumula o cargo de chefe dos senadores. 

Antes de o projeto ir para votação, o líder da oposição na Casa, senador Luis Naidenoff (UCR-Formosa), afirmou que a reforma proposta por Fernández serviria “para limpar as causas de Cristina e seus amigos”.  “Não há reforma judicial de fato”, disse em entrevista ao jornal La Nación.

Durante a sessão do Senado, uma polêmica emenda do aliado de Cristina, Oscar Parrilli, acabou sendo retirada pelo autor após sofrer muitos ataques.

O governista queria que os juízes fossem obrigados a denunciar “pressões da imprensa” quando fossem avaliar casos de comoção nacional – incluindo processos contra políticos. 

A reforma aprovada deve criar 1.387 novos cargos no Judiciário Federal, entre desembargadores, escriturários, promotores, defensores e funcionários de cartórios – o projeto original encaminhado pelo Poder Executivo contemplava apenas 219 desses cargos, mas uma emenda que a oposição chamou de “reforma da reforma” acabou sendo aprovada. 

De acordo com os opositores, a ampliação do número de cargos foi lida às pressas e não deixou margem para discussão. Antes da votação do projeto no Senado, Cristina disse que nos últimos 20 anos o país teve apenas duas reformas no Judiciário – uma para “democratizar a Justiça”, feita sob seu governo, e outra coordenada pelo ex-presidente Mauricio Macri para “perseguir” dirigentes da oposição.

Cristina responde a oito ações na Justiça e já foi até alvo de prisão preventiva, mas permanece em liberdade por causa de sua imunidade parlamentar. Entre um dos principais casos em que ela figura como investigada é o de supostos subornos pela concessão de obras públicas durante o governo de seu marido que já morreu, Néstor Kirchner (2003-2007), e o seu (2007 a 2015)./ AFP e REUTERS

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