Senado dos EUA debate mudanças em Cuba

Para governo Obama, sucesso de nova política depende de avanços democráticos na ilha

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2015 | 02h01

Mudanças democráticas em Cuba darão a medida do sucesso da política americana de reaproximação com o país, disse ontem o secretário assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, Tomasz Malinowski. "Se dentro de 20 anos Cuba se parecer com o que o senhor descreveu, nós teremos falhado", declarou ontem no Senado, depois de ouvir uma lista de violações de direitos humanos na China.

O impacto das mudanças sobre o sistema político de Cuba foi o principal tema de audiência realizada no Comitê de Relações Exteriores do Senado, da qual também participaram quatro dissidentes cubanos. Dois deles sustentaram que a reaproximação com os EUA levará a transformações democráticas na ilha, enquanto os outros sustentaram que ela só fortalecerá o regime de Raúl Castro, caso não seja acompanhada de exigências de respeito aos direitos humanos e abertura política.

Entre os senadores, estavam os dois principais opositores da política anunciada pelo presidente Barack Obama no dia 17 de dezembro: o republicano Marco Rubio e o democrata Robert Menendez, ambos filhos de imigrantes cubanos. "Eu me oponho às mudanças porque não acredito que elas serão eficazes para promover as mudanças que todos nós desejamos. Os cubanos são o único povo neste hemisfério que não tiveram uma eleição livre e justa na última década e meia", declarou Rubio, um dos pré-candidatos à presidência.

Os dissidentes cubanos Miriam Leiva, jornalista independente, e Manuel Cuesta Morúa, porta-voz do partido social-democrata Arco Progressista, se manifestaram a favor da nova política e disseram que o abandono da tentativa de isolamento da ilha vai suprimir uma das bandeiras usadas pelo regime de Raúl Castro para justificar as dificuldades econômicas.

"Nós vivemos desde 1959 sob um regime totalitário que trouxe sofrimento e exílio", declarou Leiva, expulsa do serviço diplomático em 1992 por expressar posições divergentes das do governo. "O regime encontrou nos EUA um culpado conveniente para suas falhas e diz que tudo se deve ao imperialismo e ao embargo", ressaltou.

Morúa disse que a nova política "destrói a narrativa" do governo cubano que tem como base o enfrentamento com os EUA, o que teria impacto sobre toda a região. "A mudança desarma a política exterior latino-americana, que permitia mascarar o debate democrático no hemisfério por trás do conflito entre o Norte e o Sul."

Apesar de ser otimista em relação ao impacto da abertura em relação a Cuba, Malinowski reconheceu que não há garantia de sucesso. "Ninguém sabe o que acontecerá", disse. "Nós transferimos a responsabilidade ao Estado cubano. Eles podem adotar reformas ou continuar a resistir a elas, mas todos saberão de quem é a culpa."

Presidente da organização Damas de Branco, Berta Soler criticou a negociação com o governo cubano sem a imposição de condições, entre as quais citou a libertação de todos os presos políticos e o respeito à liberdade de expressão, de associação e de greve e eleições livres. "Cuba sim, Castro não!", gritou no fim de seu depoimento.

Exilada nos EUA e integrante do Movimento Cristão de Libertação, Rosa María Payá afirmou que a expectativa de que a liberalização econômica levará a mudanças políticas não se sustenta em Cuba. "Empreendedores não podem ser um fator de promoção da democracia porque sua existência depende de sua submissão ao governo", disse.

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.