Senado haitiano planeja destituir primeiro-ministro

O frágil governo do Haiti se viuem problemas na sexta-feira com as articulações da bancadaoposicionista no Senado para destituir o primeiro-ministroJacques Edouard Alexis, após uma semana de distúrbios por causada alta no preço dos alimentos. Um grupo de 16 senadores deu um ultimato a Alexis para querenuncie até sábado, quando convocaram uma sessão do Senadopara aprovar uma moção de desconfiança. "Nossa decisão foi tomada. Temos a prerrogativaconstitucional de demitir o primeiro-ministro e decidimosfazê-lo para preservar a estabilidade do país", disse o senadorGabriel Fortune. Os senadores culpam o governo por não seempenhar o bastante contra o aumento do custo de vida. Pelo menos cinco pessoas foram mortas neste mês emprotestos no país mais pobre das Américas. Multidões indignadascom os preços do arroz, do feijão, do milho e de outrosprodutos atacaram soldados da ONU e saquearam galpões de ajudahumanitária. Muitos no Haiti dizem que a violência foi estimulada porinimigos do governo, membros ressentidos da elite ou pornarcotraficantes que usam o Haiti como entreposto para os EUA. A eleição de Préval, há dois anos, trouxe uma relativaestabilidade ao Haiti, após décadas de ditaduras, regimesmilitares, levantes políticos e violência de gangues. Parademitir o premiê basta a maioria absoluta entre os 30senadores, ou seja, 16 -- exatamente o número de assinaturas doultimato ao premiê. A demissão forçaria Préval a um longo processo parasubstituir Alexis e seu gabinete. Mas analistas como RobertRotberg, da Universidade Harvard (EUA), acham que isso nãobastaria para levar à renúncia do presidente. Para ele, osprotestos são resultado da própria abertura democrática noHaiti, "e nesse sentido são uma coisa enormemente boa" para opaís. O senador governista Jen Hector Anacacis acusou a oposiçãode mergulhar o Haiti "em mais caos". "Este não é o momento,porque em 25 de abril ele estará presidindo uma importantereunião com doadores internacionais para recolher cerca de 4bilhões de dólares para financiar o plano estratégico para ocrescimento econômico e a redução da pobreza", afirmou. Na sexta-feira, longas e desordenadas filas se formavam nospostos de gasolina de Porto Príncipe, que haviam passado diasfechados por causa dos distúrbios. Nas ruas, prossegue o trabalho de retirada das pedras,sucatas e pneus queimados usados durante as barricadas. A maioria dos haitianos vive na miséria, com menos de doisdólares por dia, e viram os preços de vários produtosessenciais até dobrar nos últimos dois meses. O ProgramaMundial de Alimentos da ONU fez um apelo global de 500 milhõesde dólares para alimentar os pobres do mundo diante da carestiaglobal. A cotação do petróleo, o aumento do consumo na Ásia, o usode terras para a produção de biocombustíveis, especulações nomercado e fatores climáticos provocam o aumento mundial nopreço dos alimentos. Um avião da Força Aérea Brasileira decolou na sexta-feiralevando 14 toneladas de alimentos para o Haiti, segundo notadivulgada pela FAB. O Brasil já doou quase 7.000 toneladas de feijão, 4.050toneladas de açúcar e 3 milhões de latas de óleo de cozinha. (Reportagem adicional de Eduardo Simões em São Paulo)

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