Andreas Solaro/AFP
Andreas Solaro/AFP

Senado italiano suspende imunidade e Salvini pode ser julgado por bloquear barco com imigrantes

Líder da extrema-direita no país pode ser condenado a até 15 anos de prisão

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 18h22

ROMA - O Senado da Itália permitiu nesta quinta-feira, 30, a abertura de um julgamento contra o líder da extrema-direita Matteo Salvini pelo bloqueio, em 2019,  de um barco da ONG espanhola Open Arms com imigrantes a bordo, na época em que ele estava à frente do Ministério do Interior.

A decisão da Câmara Alta contou com os votos dos partidos no governo: o Movimento 5 Estrelas (M5S) e o Partido Democrata (PD), a aliança Livres e Iguais (LeU) e o Italia Viva (IV), este último com uma participação decisiva, entre outros.

Especificamente, 149 senadores votaram a favor de processo, enquanto 141 ficaram contra e houve uma abstenção.

"Tenho orgulho de ter defendido a Itália: faria de novo e de novo, também porque somente neste mês de julho os desembarques são seis vezes maiores aos do mesmo período do ano anterior, com a Liga no governo. Sigo em frente, com a cabeça erguida e a consciência limpa", disse Salvini em nota.

Em agosto de 2019, o então ministro bloqueou o navio Open Arms durante 20 dias, com cerca de 150 imigrantes salvos no mar, como parte de sua política de portos fechados. O Tribunal de Ministros de Palermo pede que ele seja processado por sequestrar pessoas.

A votação no Senado não implica sua acusação direta, mas isso dependerá de uma audiência preliminar no Tribunal de Palermo, na qual será decidido se o líder da Liga será levado a julgamento ou, pelo contrário, arquivar o caso.

Salvini promoveu uma forte política de portos fechados aos navios de organizações humanitárias no Mediterrâneo central quando era ministro do Interior, cargo que deixou em setembro do ano passado.

O navio da Open Arms, ONG sediada na Catalunha, resgatou quase 150 imigrantes nas águas do Mediterrâneo em várias operações nos primeiros dias de agosto de 2019 e esperava um porto europeu para o desembarque.

Salvini se recusou desde o primeiro momento a oferecer um porto e a Open Arms, por sua vez, rejeitou a oferta das autoridades espanholas de ir aos portos de Algeciras e Mahon. A travessia seria muito longa e arriscada.

Em 15 de agosto, a Justiça italiana respondeu a um apelo da ONG contra o veto de Salvini e permitiu que o navio humanitário entrasse nas águas da ilha de Lampedusa, o enclave mais ao sul do país, para se proteger do mau tempo.

Finalmente, na noite de 20 de agosto, o Ministério Público permitiu que os 83 imigrantes que ainda estavam a bordo desembarcassem em Lampedusa, encerrando a odisseia.

Ex-ministro se defende

Durante seu discurso no Senado, o líder da extrema-direita rejeitou essa votação como uma questão "política" e criticou seus antigos parceiros do M5S, que no passado o defenderam em um caso semelhante e agora permitem sua acusação.

O senador garantiu que "o navio pirata" se recusou a ir ao seu Estado de bandeira. Também disse acreditar que agia de acordo com todo o governo e com o primeiro-ministro Giuseppe Conte, seu "cúmplice", além de afirmar que seu dever "sagrado" era defender as fronteiras da "invasão".

O político sempre defendeu que suas ações eram compartilhadas por todo o governo. No entanto, a senadora do M5S, Elvira Lucia Evangelista, lembrou-lhe que o próprio Conte o pressionou para que os mais vulneráveis e menores de idade pudessem desembarcar. "Era uma política pessoal de Salvini", disse.

O ex-ministro enfrenta outro processo por um caso semelhante, devido ao bloqueio, em julho de 2019, de um navio da Guarda Costeira italiana com 131 imigrantes a bordo, e a audiência para decidir se deve abrir o processo deve acontecer em outubro.

Queda na popularidade

A autorização do Senado para suspender a imunidade "certamente terá consequências para Salvini", cuja popularidade despencou no início da pandemia, que se tornou a principal preocupação dos italianos, à frente da imigração, que costumava ser uma questão central, aponta o cientista político Franco Pavoncello.

Uma pesquisa do instituto Demopolis divulgada esta semana dá à Liga 25,4% das intenções de voto, uma queda de 11 pontos em um ano, enquanto o partido pós-fascista italiano Fratelli observa um aumento.

A Liga continua sendo, no entanto, a principal formação política italiana. "No momento, Salvini gera pouco interesse da mídia. A decisão de privá-lo da imunidade... poderia gerar alguma atenção da mídia para ele", disse Pavoncello à agência France Press. No entanto, "um processo pode ser perigoso para ele a longo prazo, pois as acusações são graves", acrescentou.

Os problemas de Salvini começaram no início de agosto de 2019, quando ele era ministro do Interior e vice-primeiro ministro e cometeu um erro estratégico ao provocar uma crise no governo.

A coalizão La Liga, formada em junho de 2018, com o Movimento 5 Estrelas (M5E), explodiu, e seu ex-aliado conseguiu formar um governo com o Partido Democrata (PD, centro-esquerda). Desde então, Salvini navega na oposição, sem abandonar sua ambição de se tornar primeiro-ministro./EFE e AFP

 

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