Senador estabelece base para erguer ponte sobre abismo racial

Barack Obama estava ao telefone falando sobre uma questão sobre a qual não queria se debruçar em sua campanha: raça. Ele acabava de pronunciar seu discurso sobre raça na Filadélfia e estava falando um pouco sobre a necessidade de superar os intermináveis vaivéns dessa questão. Ele disse que, com seu discurso, pretendeu descrever com precisão o "abismo de incompreensão" que continua a promover a divisão racial, e oferecer uma maneira de "sair dessa situação".O discurso deveria ser uma leitura obrigatória em salas de aula nos EUA - e na maioria dos outros locais também. Com uma visão de mundo abarcando tanto justiça como cura, o senador Obama é melhor nessas questões que qualquer outro líder americano desde Martin Luther King. Infelizmente, o mais provável é que a essência do discurso se perca na algazarra que inevitavelmente eclode toda vez que surge uma controvérsia racial no país. A mensagem fundamental que Obama está tentando passar é que a loucura racial, que perverteu tantas eleições, precisa parar. Preconceito racial, ignorância ou hostilidade - o que que quer que tenha sido, isso levou milhões de americanos a votar contra seus próprios interesses econômicos e em políticas que prejudicaram o país. "É difícil tratar de grandes questões", disse-me Obama, "quando somos facilmente distraídos pelo antagonismo racial."O tema do discurso é legítimo e poderoso e deve ressoar em americanos de mente aberta, quer apóiem ou não Obama para a presidência. "Temos uma escolha neste país", discursou o senador. "Podemos aceitar uma política que produza divisão, conflito e cinismo", ou seguir uma direção diferente. "Neste momento, nesta eleição, podemos nos unir e dizer: ?Não desta vez.? Desta vez, queremos falar das escolas despedaçadas que estão roubando o futuro de crianças negras, e de crianças brancas, e de crianças asiáticas, e de crianças hispânicas, e de crianças americanas nativas. Desta vez, queremos falar sobre como as filas de pronto-socorro estão cheias de brancos, negros e hispânicos que não têm plano de saúde. Queremos falar sobre as usinas fechadas que um dia forneceram uma vida decente para homens e mulheres de todas as raças, e sobre as casas à venda que um dia pertenceram a americanos de todas as religiões, todas as regiões, todos os modos de vida."Os grandes desafios que este país continua a enfrentar - relacionados às guerras no Iraque e no Afeganistão, à ameaça do terror, a uma economia em apuros, à mudança climática, etc. - não podem ser resolvidos, disse Obama, num ambiente cheio de discórdia e hostilidade.Ao ouvir o discurso me veio à mente Bobby Kennedy numa noite fria de abril de 1968, quando teve de dizer a uma multidão que se aglomerara para ouvi-lo em Indianápolis que King fora assassinado. A maioria dos presentes era negra. "Neste momento difícil para os EUA", disse Kennedy, "talvez seja bom perguntar que tipo de nação somos e que direção queremos seguir. Para aqueles de vocês que são negros: vocês podem estar cheios de amargura, de ódio e de desejo de vingança. Podemos seguir nessa direção como país, com grande polarização, cheios de ódio uns contra os outros. Ou podemos fazer um esforço, como Martin Luther King fez, para entender e compreender, e para substituir a violência ... pelo empenho para compreender com compaixão e amor."Hoje ainda há milhões espiando cheios de medo e ira através do abismo da incompreensão. Política à parte, o discurso de Obama é um excelente ponto de partida para o difícil trabalho de erguer uma ponte sobre esse abismo.*Bob Herbert é colunista do ?New York Times?

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