"Senadores jogam tênis com bolinha de nitroglicerina"

?Os senadores estão em um transatlântico brigando pelos melhores camarotes. Mas eles não percebem que enquanto brigam, o navio, o Titanic, está afundando? e ?os senadores estão jogando tênis com uma bolinha cheia de nitroglicerina? foram algumas das frases mais ouvidas nesta sexta-feira na city financeira de Buenos Aires.As metáforas versavam sobre a demora do Senado em debater e votar o pacote de ajuste fiscal do governo do presidente Fernando De la Rúa e o perigo que isso implicaria para a recuperação financeira do país. O debate e a votação, que teriam que ter ocorrido na quarta-feira passada, foram adiados para a terça-feira que vem, para desespero do governo, que viu como a taxa de risco do país voltou a ultrapassar os 1.600 pontos.O ajuste do governo implicará a redução em 13% dos salários dos funcionários públicos e as aposentadorias acima de US$ 500, além da criação e ampliação de alguns impostos para empresas de serviços e operações financeiras. Com este ajuste o governo pretende conseguir déficit fiscal 0%, e assim, recuperar a abalada imagem da Argentina entre os mercados.Nesta sexta-feira, ao longo de todo o dia, o governo De la Rúa atarefou-se em tentar convencer os senadores a votar o ajuste ainda neste fim de semana. No entanto, tanto nas fileiras do próprio governo, a União Cívica Radical (UCR), como na oposição, basicamente o Partido Justicialista (mais conhecido como ?Peronista?), existiam fortes resistências ao ajuste.Dentro da UCR, o presidente do partido, o ex-presidente da República Raúl Alfonsín, colocava mais uma vez pedras no caminho do presidente De la Rúa ao afirmar que o piso do ajuste teria que ficar em US$ 1.000, tanto para os salários dos funcionários públicos como as aposentadorias.À tarde, o velho caudilho da UCR reuniu-se com De la Rúa na Casa Rosada, sede do governo, e saiu dali sem mudar de idéia sobre o piso, mas afirmando que faria o possível para que a lei fosse aprovada neste fim de semana.No lado peronista do front político, estudava-se a possibilidade de excluir as aposentadorias de qualquer ajuste. Os peronistas controlam amplamente o Senado e sem eles é impossível sequer conseguir quórum.Mas enquanto o governo tem pressa, os peronistas estão calmos. Eles afirmam que somente estarão disponíveis para votar o ajuste depois da reunião que terão com os governadores peronistas na segunda-feira, na qual analisarão o pacote de De la Rúa.O ministro da Economia, Domingo Cavallo, profundo conhecedor do modus operandi peronista (durante cinco anos Cavallo foi ministro do peronista ex?presidente Carlos Menem), sustentou que os peronistas votarão a favor do ajuste, já que ?mesmo com discursos oposicionistas eles já aprovaram diversas leis?.O porta-voz do presidente De la Rúa, Juan Pablo Baylac, afirmou que ?seria desejável? que o Senado aprove o ajuste neste fim de semana. ?Não temos pressa para esta votação. Temos urgência?, implorou o presidente do Senado, Mario Losada, da UCR.De manhã cedo, o país foi sacudido pelas declarações do secretário de Programação Econômica, Julio Dreizzen, que afirmou que ?alguns dos bancos mais representativos já condicionaram sua participação na projetada megatroca de Letras do Tesouro à aprovação do pacote fiscal no Senado?.Além disso, segundo Dreizzen, os bancos esperariam a aprovação para só depois entregar US$ 200 milhões de impostos que seriam pagos de forma antecipada.À tarde, diversas fontes do setor bancário se encarregaram de minimizar as declarações de Dreizzen, afirmando que os bancos fornecerão os fundos solicitados pelo governo sem se preocupar com a aprovação do ajuste. A demora na votação está preocupando os analistas.Para o ex?presidente da Bolsa de Buenos Aires, Luis Corsiglia, a Argentina ?está caminhando na beirada de uma marquise?. Segundo ele, ?todo o mundo está nos observando, eles acham que vamos cair no default?.Para o analista e responsável da Moody?s do caso argentino, Mauro Leos, a decisão desta agência qualificadora de reduzir a nota do país de B3 para CAA1 foi causada ?pela deterioração que está sendo verificada na situação financeira?.Segundo ele, existem ?dúvidas? sobre o grau de apoio político ao ajuste. A qualificação da dívida em CAA1 é a pior em 15 anos. O ex-chefe do gabinete de ministros de De la Rúa, Rodolfo Terragno, disse nesta sexta que é ?imprescindível? que a Argentina ?reestruture sua dívida?.Segundo Terragno, esta reestruturação teria que ser feita de forma negociada com os credores. Terragno já foi presidente da UCR e é o principal intelectual do partido. No entanto, atualmente não conta com respaldo dentro da UCR.Durante a complicada jornada de ontem, o governo De la Rúa teve mais um problema, quando o juiz Roberto Pompa ? a pedido da Associação de Trabalhadores do Estado - deu um parecer no qual suspende o decreto presidencial que estabelece o ajuste para os salários dos funcionários públicos. No entanto, este parecer ficaria sem efeitos caso o Senado aprove o ajuste.Além disso, o decreto presidencial possui uma polêmica cláusula que impede qualquer ação judicial contra o corte dos salários.O diretor da AFIP, a Receita Federal, Héctor Rodríguez, admitiu que a arrecadação tributária em julho terá uma queda de 6% em relação ao mesmo mês do ano passado.Isto indica que a meta de déficit fiscal 0% poderia ser difícil de ser atingida neste mês. Segundo Rodríguez, as causas da queda na arrecadação seriam a redução da atividade econômica, além de diversas greves.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.