Senhores da guerra lutam por cidade afegã

Famílias aterrorizadas abrigaram-se em porões ou fugiram a pé hoje enquanto senhores da guerra rivais travavam uma combates de artilharia pelo controle de Gardez, matando pelo menos 43 pessoas, ferindo dezenas e levantando incômodas dúvidas sobre o estado da frágil paz no Afeganistão. Fortes explosões, o som de distantes morteiros e tiros de metralhadoras pesadas eram ouvidos nas ruas desertas da cidade enquanto tropas do governador nomeado da província, entrincheirado no topo de estratégicas colinas ao sul da cidade, disparavam contra combatentes leais ao conselho tribal municipal, ou shura, abrigados em fortalezas no arruinado centro da cidade. A luta em Gardez, na província de Paktia, deu mais peso ao pedido do líder afegão Hamid Karzai pela expansão das atividades de uma força de paz internacional para além da capital Cabul para ajudar a conter explosões de combates entre facções como estas. Karzai, que fez uma parada na Grã-Bretanha a caminho de casa depois de uma visita aos Estados Unidos, reuniu-se com o primeiro-ministro Tony Blair e disse posteriormente que havia um imenso apoio entre o povo afegão à expansão da missão de manutenção da paz. "É uma demanda do povo afegão como uma medida do comprometimento da comunidade internacional, como um símbolo de seu comprometimento com o Afeganistão", afirmou. Os combates em Gardez podem complicar esforços dos EUA - incluindo operações clandestinas lideradas por pequenos grupos de forças especiais - para eliminar lutadores fugitivos do Taleban e da Al-Qaeda na província de Paktia, ao sul de Cabul. Aviões de combate norte-americanos circulavam em altas altitudes durante os combates de hoje, e um contingente do que líderes locais dizem serem forças especiais dos EUA saíram de vista em sua base no sul da cidade. Gardez está sendo cercada por Bacha Khan, um senhor de guerra local aliado com a administração interina do Afeganistão que vem ajudando as forças especiais dos EUA. O governo de Karzai confirmou sua nomeação a governador, mas só depois que Khan já havia reivindicado o cargo. Depois que idosos tribais se recusaram a aceitá-lo como governador, ele tomou a iniciativa na quarta-feira de capturar a cidade à força. Seus homens avançaram em direção à cidade, mas foram forçados a recuar por combatentes do shura depois de algumas horas. Buscas ainda estavam sendo promovidas de casa em casa por lutadores remanescentes, disseram comandantes do shura. Os dois lados afirmam ter feito dezenas de prisioneiros. Os combatentes de Khan admitiram a perda de 10 homens e as forças do shura, de 15; autoridades disseram que 18 civis morreram em dois dias de confrontos. Dezenas de outros foram feridos. No rudimentar hospital de Gardez, com granadas de morteiro explodindo perto dos muros, médicos diziam não dispor de material básico para tratar feridos. Dos 28 atendidos nas primeiras 24 horas de combates, nove morreram, afirmou o cirurgião-chefe, doutor Najib. Haji Saifullah, o poderoso líder pashtun que encabeça o conselho, disse que Khan nunca será aceito como governador de Gardez. "Ele é um contrabandista, um tirano e um assassino", afirmou. Saifullah disse que o shura enviou uma carta ao governo afegão explicando sua posição e pedindo para que a nomeação seja cancelada. As forças de Khan, entretanto, afirmam que vão continuar lutando até destruírem as defesas da cidade. "Vamos tomar Gardez", disse Jilani, um assessor de Khan. Um confronto aberto entre Khan e o shura de Gardez vinha fermentando há meses. Khan acusa integrantes do shura de serem simpatizantes do Taleban ou da Al-Qaeda, o que eles negam. Em dezembro, partidários de Saifullah acusaram Khan de ter pedido um ataque aéreo dos EUA contra um comboio de membros do shura de Gardez, identificando-os erroneamente como antigos membros da Al-Qaeda e do Taleban. Doze integrantes do comboio morreram. A província de Paktia - na fronteira com o Paquistão - tem sido um dos principais alvos da ação militar dos EUA desde a queda do Taleban. Um poderoso comandante do Taleban, Jalaluddin Haqqani, controlava uma grande parte da província e permitiu que a Al-Qaeda estabelecesse campos de treinamentos e usassem cavernas e túneis nas montanhas. Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.