Senhores hóspedes, não voltem à rotina

Hamas atraiu de novo inimigo para a guerra, mas concessões de moderados israelenses e palestinos podem romper ciclo

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2014 | 02h04

Às 6h02 da manhã de sábado, a sirene do ataque aéreo tocou em Tel-Aviv. O pessoal do hotel me fez levantar, deixar o quarto e entrar na área dos elevadores de serviço desprovida de janelas, com duas famílias francesas. Todo mundo estava de pijama.

Depois de 10 minutos, passada a ameaça de mísseis do Hamas, pudemos voltar aos nossos quartos. Preparava-me para deitar novamente, quando o alto-falante do hotel avisou: "Senhores hóspedes, podem voltar a sua rotina".

Enquanto Israel e o Hamas reduziam a intensidade de sua guerra mais recente, só pude me perguntar se a mensagem do gerente do hotel também se dirigia a eles. É isso, então? Mais de 60 soldados israelenses e cerca de 1.800 e habitantes de Gaza - várias centenas de crianças e civis - e combatentes do Hamas mortos e todo mundo volta à rotina? Acho que não. Algumas coisas novas e importantes foram reveladas aqui.

A começar pela luta. Desde o início de 2000, o Irã e seus representantes, o Hezbollah e, até recentemente, o Hamas, vêm seguindo uma estratégia de três pilares em relação a Israel. A primeira é a guerra assimétrica, com o emprego fundamentalmente de foguetes baratos, destinados a paralisar cidades e aldeias israelenses. Por enquanto, o sistema antimísseis Domo de Ferro, de fabricação israelense, aparentemente aniquilou essa arma. Os foguetes do Hamas não produziram praticamente dano algum.

O segundo pilar, que estreou na guerra entre Israel e o Hezbollah em 2006, consiste em instalar combatentes e lançadores de foguetes do Hamas entre a população de Gaza e obrigar Israel a ir à guerra, na qual só poderá derrotar ou dissuadir o Hamas sob o risco de ser acusado de crimes de guerra. Ninguém aqui faz essa afirmação de maneira explícita, mas basta analisar o conflito para compreender que Israel considera fundamental para sua estratégia de dissuasão que nem o Hamas nem o Hezbollah "nos superem no desvario".

Não acredito que Israel escolhesse como alvo civis de Gaza - acredito que tentou evitá-los - mas no fim, não desistiu diante da perspectiva de um número considerável de civis mortos como efeito colateral. O Hamas usou civis de Gaza como isca para acusar o rival de crimes de guerra. E Israel fez tudo o que era necessário para provar ao Hamas: "Vocês não conseguirão nos deixar desorientados a ponto de sairmos dessa região". Foi tudo muito feio. Aqui não é a Escandinávia.

O terceiro pilar da estratégia Irã/Hezbollah/Hamas é o seguinte: Israel deve ocupar para sempre os territórios palestinos na Cisjordânia. A perpetuação da ocupação colonial é essencial para tirar a legitimidade de Israel e isolá-lo no cenário mundial - principalmente entre os jovens ocidentais.

Nesse caso, o Hamas conseguiu uma enorme vitória. Vimos isso claramente na decisão da Administração Federal da Aviação (FAA, na sigla em inglês) de proibir momentaneamente os voos dos Estados Unidos para Tel-Aviv, quando um único foguete do Hamas caiu a menos de dois quilômetros do aeroporto. Foi exatamente essa a mensagem que o Hamas queria que Israel entendesse: "Se podemos fechar o seu aeroporto, sua âncora de salvação global, pelo lançamento de um único foguete de Gaza, imaginem o que acontecerá se vocês saírem da Cisjordânia, bem ao lado". A proibição da FAA agora será usada aqui como argumento fundamental para que Israel nunca mais ceda a Cisjordânia. Daqui posso ouvir os aplausos de Teerã.

E depois houve os túneis do Hamas e o que eles revelaram. Percorri apenas um através da fronteira de Gaza, perto do Kibutz Ein Hashlosha.

Com três quilômetros de extensão, totalmente de concreto nas paredes e no teto, tinha eletricidade e trilhos ferroviários. O que mais me impressionou, entretanto, foi a qualidade da construção - peças de concreto prefabricado perfeitamente projetadas e encaixadas. Este túnel levou anos e milhões de dólares para ser construído e exigiu o desvio de enormes recursos que deveriam ir para estradas de uso civil, edifícios e escolas. Tinha uma única finalidade e não era exportar frutas, mas transportar combatentes, ida e volta até o kibutz. E foram muitos.

Devo dizer que fiquei pasmo com a dedicação exigida para escavar esse túnel, mas revoltado com o que serviu para alimentar essa dedicação: um apocalíptico programa jihadista. Hoje, as forças nacionalistas religiosas têm uma energia real nesta região. Cada vez mais, o conflito está adquirindo um caráter religioso.

The Times de Israel noticiou que, no início dessa guerra, "num despacho oficial enviado para os comandantes dos batalhões e de companhias no dia 9 de julho, o comandante da Brigada Givati, coronel Ofer Winter" - um dos oficiais de mais alta patente de Israel no fronte de Gaza - "disse aos seus subordinados que 'a história nos escolheu para darmos início à luta contra o inimigo terrorista de Gaza que perpetra abusos, blasfema e maldiz o Deus das forças (de defesa) de Israel". Assustador.

Agora, os jihadistas estão se espalhando pelo Iraque e pela Síria, arrasando as minorias cristãs e outras. A escritora libanesa Hanin Ghaddar lembrou esta semana que o historiador libanês Kemal Salibi disse certa vez que "são os cristãos árabes que mantêm o mundo árabe 'árabe' e não os 'muçulmanos' ", e "desempenham um papel vital na definição de uma identidade cultural árabe". Agora, ela afirmou, "a região parece estar voltando ao tribalismo, como se um século de despertar intelectual e de ideias laicas estivesse sendo apagado e nossas identidades estivessem evaporando".

É aqui que Israel pode escolher. Seu temerário projeto de assentamentos judeus na Cisjordânia o levou a adotar a estratégia de tentar fazer com que a Autoridade Palestina moderada no território continue fraca e o Hamas em Gaza se mantenha ainda mais fraco. A única maneira de Israel esperar estabilizar a Faixa de Gaza é dando poderes à Autoridade Palestina para que assuma o controle das fronteiras em Gaza. Entretanto, isso exigirá concessões territoriais na Cisjordânia à Autoridade Palestina, porque ela não agirá como força policial de Israel a troco de nada. O momento crucial é este. Ou árabes e israelenses moderados colaboram e combatem lado a lado ou os fanáticos irão realmente dominar esta região. Por favor, não voltem a sua rotina. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Thomas L. Friedman é colunista

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