Sentença de mordomo não coloca fim a escândalo papal

Audiência de cúmplice deve atrair novamente atenções sobre o caso em um mês.

David Willey, BBC

07 de outubro de 2012 | 16h42

A sentença de 18 anos de prisão dada pela Justiça do Vaticano ao ex-mordomo do papa, Paolo Gabriele, pode são ser o fim, mas sim o início de uma história complexa de traição e descontentamento no coração da Igreja Católica.

Centenas de documentos secretos roubados do escritório do papa - sistematicamente por um longo período de tempo - vazaram para a imprensa italiana e foram retratados em um livro que se tornou bestseller no início do ano.

O papa Bento 16 conseguiu que o caso Gabriele fosse finalizado horas antes do início de um dos eventos mais importantes do ano para o Vaticano, neste domingo.

Ele convocou um sínodo de três semanas. Nele, bispos do mundo todo foram convocados para discutir formas de difundir o que a Santa Sé chama de forma otimista de "a nova evangelização".

Esse é o código de um esforço massivo da Igreja Católica para conter a difusão do secularismo em países - particularmente na Europa - que se proclamam católicos, mas cuja audiências nas missas de domingo cai cada vez mais.

O caso do julgamento do mordomo roubou as atenções da agenda religiosa planejada para o período e atraiu a atenção do mundo para mais um episódio que contribui para a crise de credibilidade da Santa Sé.

Ofertas Lucrativas

A edição de domingo do jornal do Vaticano Osservatore Romano, previsivelmente publicou apenas uma pequena reportagem sobre o julgamento do mordomo no pé de sua última página.

Em teoria, segundo um tratado assinado pela Santa Sé e a Itália em 1929, pessoas condenadas por crimes cometidos no território do Vaticano cumprem suas sentenças em cadeias italianas - uma vez que não há instalações penitenciárias na Cidade do Vaticano.

Mas se Gabriele, um cidadão do Vaticano, fosse transferido para uma cadeia na Itália, ele poderia ser exposto a ofertas lucraticas para revelar detalhes do que presenciou enquanto estava a serviço do papa.

O advogado do ex-mordomo afirmou que ele não pretende recorrer da decisão judicial e está pronto para cumprir sua sentença em prisão domiciliar em seu apartamento na Cidade do Vaticano.

Outro julgamento

Em aproximadamente um mês, a Justiça do Vaticano deve analisar o caso de Claudio Sciarpelletti, um técnico de computadores que trabalhou para a Secretaria de Estado do Vaticano.

Ele foi originalmente acusado de ser cúmplice de Gabriele no roubo de documentos, mas a Justiça do Vaticano decidiu julgá-lo separadamente.

Sciarpelletti convocou como uma de suas testemunhas de defesa um clérigo de alto escalão do papado para dar evidências relacionadas aos vazamentos de informações do Vaticano. A testemunha é o monsenhor responsável pelo setor de documentação da Secretaria de Estado.

A Promotoria está considerando fazer acusações ainda mais sérias contra Gabriele e Sciarpelletti - incluindo violação de segredos de Estado e ataque à segurança do Estado. As penas para esses crimes é mais severa que a de roubo.

O novo estrategista de comunicação do Vaticano, Greg Burke, ex-correspondente da Fox News, afirmou que Bento 16 ficou muito aborrecido com o escândalo.

Burke afirmou à BBC: "Há quatro ou cinco pessoas no mundo que têm a chance de falar diariamente com o papa e ter cinco minutos com ele sem distrações. Paolo Gabriele poderia ter sido uma delas. Ao invés disso ele provocou esse escândalo". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Tudo o que sabemos sobre:
topvaticanopaolo gabriele

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.