Sentença de morte de Saddam divide países

Os líderes de diversos países e de organismos internacionais têm manifestado posições divergentes em relação à condenação do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, à pena de morte por enforcamento. Não há consenso nem mesmo dentro do mundo árabe - assim como no Ocidente, os países mais próximos do Iraque manifestam opiniões diferentes. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, qualificou a condenação de Saddam como "um marco nos esforços do povo iraquiano em substituir o reinado de um tirano pelo reinado da lei". De acordo com o líder americano, a sentença representou "uma enorme conquista para a jovem democracia do Iraque" e para o governo do país. "O homem que impôs medo ao coração dos iraquianos teve de ouvir os relatos de torturas e assassinatos que ele ordenou contra iraquianos hoje livres", disse o presidente americano. Bush acrescentou: "Hoje, as vítimas desse regime receberam uma medida dessa justiça, que elas julgavam que jamais viria". Nações Unidas e Europa A ONU e a Europa criticaram a sentença. A principal encarregada da defesa dos direitos humanos na ONU, Louise Arbour, pediu que Saddam tenha acesso a um processo justo de apelação, e que o governo iraquiano abstenha-se de executá-lo, mesmo se a condenação for mantida. "Um processo de apelação digno de crédito é parte das garantias do julgamento justo", lembrou a alta comissária de Direitos Humanos. Arbour, ex-juíza da Suprema Corte canadense, afirmou que o direito à apelação é "particularmente importante neste caso, no qual se impôs a pena de morte". "Os que foram condenados hoje devem ter todas as oportunidades de exaurir os recursos de modo justo, e qualquer que seja o resultado do apelo, espero que o governo observe uma moratória nas execuções", afirmou ela. O premier espanhol, José Luiz Rodrigues Zapatero, disse que Saddam tem de responder por seus atos, mas "não é a favor da pena de morte". O governo italiano do primeiro-ministro Romano Prodi também criticou a decisão. O governo da Irlanda afirmou que a União Européia deixou claro que às autoridades iraquianas que o bloco é contrário à pena de morte. A França também demonstrou preocupação com o eventual aumento da violência no Iraque em razão da decisão do tribunal. A única voz dissonante dentro do bloco é a do premier britânico, Tony Blair, cujo gabinete elogiou a sentença. Mais "derramamento de sangue" A condenação à morte de Saddam Hussein poderia causar mais "derramamento de sangue" em vez de acalmar a frágil situação no Oriente Médio, afirmaram analistas chineses nesta segunda-feira ao jornal "China Daily". "É evidente que alguns seguidores de Saddam provavelmente empreenderão ações de vingança se ele for executado, o que aprofundará a confusão no país", disse Yin Gang, especialista sobre o Oriente Médio da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Yin acrescentou que os xiitas, "fortemente perseguidos pelo mandato autoritário de Saddam durante mais de duas décadas", verão a condenação como um motivo de celebração. Mundo árabe A opinião pública árabe se viu dividida pela sentença de morte imposta ao ex-ditador. Alguns analistas disseram que a mensagem por trás da decisão é de que o governo em Washington está determinado a seguir em sua missão no Iraque. "Se não houvesse veredicto, ou se o veredicto tivesse sido comutado, isso teria consolidado a sensação de fracasso dos EUA no Iraque", disse o jornalista saudita Dawood al-Shirian. Nas ruas, as reações foram variadas. Alguns árabes acreditam que Saddam deveria ter a liberdade de governar seu país como lhe parecesse melhor. Eles apontam para a violência que tomou conta do Iraque desde a derrubada do ex-ditador pelos EUA, em abril de 2003. "Se Saddam está condenado à morte, deveriam ser justos e condenar o senhor Bush á morte... e mandar Ehud Olmert (o primeiro-ministro) de Israel para a morte também, pelo que fez no Líbano. se isso for justo, que morra Saddam", disse um joalheiro jordaniano, Ibrahim Hreish. Já o jornalista libanês Satieh Noureddine declarou que Saddam merece morrer não só pelo massacre de xiitas na cidade de Dujail, em 1982 - crime que levou à sentença de morte - mas também por "entregar o Iraque aos americanos... sem resistência". O analista iraquiano Mustafa Alani, do Centro de Pesquisas do Golfo, baseado em Dubai, disse que a relevância de Saddam para o Iraque foi eclipsada pelo caos que engole o país. Ele diz que o atual governo está implicado em crimes iguais aos que levaram à condenação do ex-ditador. "As pessoas que o julgaram não são melhores do que ele", disse Alani. "Nos últimos três anos, elas foram responsáveis, direta ou indiretamente, por meio milhão de mortes. Há matança em massa, corrupção e esquadrões da morte. Saddam é um criminoso, sem dúvida, mas os outros não são anjos". Anistia Internacional O diretor da Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África, Malcolm Smart, lembrou que a organização se opõe à pena de morte em todas as circunstâncias. "Durante o governo de Saddam, denunciamos enormes abusos em seu país. Consideramos importante que ele e outros sejam responsabilizados. Mas até mesmo ele merece um julgamento justo, e o processo em Bagdá não atingiu os padrões necessários para um julgamento justo", afirmou Smart, cuja organização é baseada em Londres. "Haverá um estágio de apelação, que terá de olhar para a justiça do julgamento", disse Smart. "As opções seriam fortalecer o julgamento, usando juízes internacionais independentes ou realizando (o apelo) fora do país". O presidente deposto do Iraque Saddam Hussein foi condenado neste domingo à pena capital por crimes contra a Humanidade, em função da morte de 148 xiitas na localidade de Dujail, em 1982.

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