Sentimento pacifista britânico ameaça Blair

Com cartazes onde se lê "Não Ataquem o Iraque" e "Não em Meu Nome", centenas de milhares de pessoas devem participar, neste sábado, de uma passeata no centro de Londres, numa das maiores de dezenas de manifestações contra a guerra planejadas em todo o mundo. Para a preocupação do primeiro-ministro Tony Blair, legisladores de seu Partido Trabalhista estarão entre os manifestantes.Com a oposição a uma ação militar permanecendo teimosamente alta, a insistência de Blair em fazer parte da "coalizão dos determinados" contra Saddam Hussein, liderada pelo presidente dos EUA, George W. Bush, tem sido o maior desafio, até hoje, contra sua liderança."Um número cada vez maior de parlamentares trabalhistas está se posicionando contra a guerra", afirmou numa entrevista coletiva o legislador da esquerda trabalhista Jeremy Corbyn. "O governo está em dificuldades, ele não está conquistando ninguém. A posição de Blair no partido está em queda".Enquanto Blair insiste em que Saddam tem de ser desarmado pela força, se não o fizer por vontade própria, a perspectiva de guerra tem dividido seu partido. Entre os manifestantes concentrados sábado no Hyde Park, em Londres, estarão altas figuras trabalhistas - como a antiga secretária para a Irlanda do Norte Mo Mowlam - e grandes delegações de sindicatos trabalhistas, que formam a base de apoio do partido.Organizadores acreditam que milhões de pessoas irão protestar no sábado em cidades de todo o mundo, de Vancouver a São Paulo, de Tóquio a Hong Kong.São esperadas 100.000 pessoas em Nova York, onde o arcebispo sul-africano Desmond Tutu e os atores Susan Sarandon e Danny Glover vão discursar para a multidão. Manifestações também estão planejadas em toda a Austrália, cujo governo também se comprometeu a mandar tropas para uma possível ação dos EUA.Grupos pacifistas alemães afirmam que 80.000 sairão às ruas de Berlim. Os governos francês e alemão têm liderado a oposição européia a uma guerra.Líderes de sindicatos dos ferroviários, bombeiros e de outras categorias vão discursar no protesto em Londres, junto com o defensor dos direitos civis americano Jesse Jackson, a ativista Bianca Jagger e o líder dos oposicionistas liberal-democratas britânicos, Charles Kennedy.Cinqüenta e sete parlamentares, a maioria do Partido Trabalhista - como a ex-ministra da Cultura Chris Smith e a atriz Glenda Jackson - apresentaram uma moção condicionando a participação da Grã-Bretanha numa guerra a uma autorização do Parlamento.O governo Blair tem prometido que os parlamentares serão chamados a votar no caso de uma guerra, mas não necessariamente antes que as tropas entrem em ação."O público está cético. Eles têm o direito de estarem céticos", considerou o parlamentar trabalhista Tony Wright. "Não vivemos numa era em que as pessoas podem apenas dizer ´confie em mim´ ou ´eu tenho acesso a informações que, se você tivesse, você se comportaria de forma diferente? ".Organizadores do protesto de sábado esperam um comparecimento em massa. Um evento semelhante em setembro último atraiu pelo menos 150.000 pessoas, segundo a polícia. Os organizadores estimaram o comparecimento em 400.000, e esperam superar esse número no sábado.Uma pesquisa divulgada na quarta-feira pela BBC mostrou que apenas 9% dos consultados concordam em que a Grã-Bretanha participe de uma guerra que não tenha o respaldo da ONU. Já 45% disseram que a Grã-Bretanha não deve participar de uma guerra em qualquer circunstância. Quarenta por cento apóiam a entrada na guerra com um mandato da ONU.

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