John Moore/Getty Images/AFP
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Separação de famílias de imigrantes causa racha entre Casa Branca e Partido Republicano

Congressistas discutem opção para impedir que crianças sejam separadas dos parentes ao serem abordadas na fronteira; projetos de lei serão votados semana que vem

O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2018 | 12h54

WASHINGTON - Republicanos do Congresso dos Estados Unidos se distanciaram da administração do presidente Donald Trump e sua política de separar crianças de seus pais na fronteira sul do país. O racha acontece após a tentativa do governo de justificar a política de "tolerância zero" com os imigrantes que cruzam a fronteira.

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A secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders, afirmou que "é muito bíblico aplicar a lei". Mais cedo, o secretário da Justiça Jeff Sessions havia citado a Bíblia anteriormente, em defesa da política de fronteira que tem resultado em centenas de crianças sendo separadas de seus pais.

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Os comentários vieram quando presidente da Câmara, o republicano Paul Ryan, e outros companheiros de partido disseram não estar confortáveis com a separação de pais e filhos. Os casos aumentaram dramaticamente depois que o Departamento de Justiça adotou, em abril, uma política que acusa todas as pessoas que atravessam a fronteira ilegalmente. "Nós não queremos que as crianças sejam separadas de seus pais", disse Ryan na quinta-feira 14.

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Em uma conversa tensa com jornalistas na sala de imprensa da Casa Branca, Sarah acusou o partido Democrata pela política de separação e insistiu que o governo atual não fez nenhuma mudança que aumentasse o uso da tática. "A separação de famílias de imigrantes ilegais é produto das mesmas brechas legais que os democratas se recusam a fechar e essas leis são as mesmas que estão aí há mais de uma década, o presidente está simplesmente as impondo", afirmou a secretária.

Ryan e outros legisladores afirmaram que estão tentando resolver o problema com um projeto de lei sobre imigração. Um rascunho do documento, divulgado na quinta-feira, determina que as crianças sejam mantidas com suas famílias enquanto estivessem sob custódia do Departamento de Segurança Interna, ou seja, na prática ficaram detidas junto com seus parentes.

O congressista acrescentou que a atual política é aplicada de acordo com uma decisão judicial que impede que as crianças entrem ilegalmente no país sejam mantidas sob custódia por longos períodos. A líder democrata na Câmara, Nancy Pelosi, rejeitou a avaliação, dizendo que o presidente Trump poderia dar um fim à prática rapidamente. Ela chamou a política de separação de "bárbara".

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As separações familiares são resultado da "política de tolerância zero" da administração Trump para as pessoas que entrem no país ilegalmente. Sob a diretriz, as famílias que atravessam a fronteira sofrem um processo criminal. Anteriormente, as famílias passavam por processos de deportação civil, o que permitia que as crianças permanecessem com seus pais. Durante o processo criminal, as crianças são geralmente liberadas para os cuidados de outros membros da família ou para a assistência social.

Pressão.

Histórias de bebês e crianças pequenas sendo tiradas de suas mães receberam ampla cobertura da imprensa e a Casa Branca tentou mudar a narrativa oferecendo uma excursão a alguns canais de notícias em uma antiga unidade do Wallmart, próxima da fronteira, que serve de casa a centenas de crianças imigrantes. A excursão foi rigorosamente controlada e o Departamento de Serviços Humanos e Saúde não permitiu que a imprensa fotografasse ou fizesse entrevistas em vídeo. Ao invés disso, um vídeo produzido pelo governo sobre o abrigo foi liberado.

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A visita ocorreu depois que um senador democrata tentou entrar em uma instalação federal no Texas, onde crianças imigrantes estão retidas. A polícia foi chamada e o senador Jeff Merkley, do Oregon, teve de deixar o local. Em outra instalação, usada para processar imigrantes e administrada pelo Departamento de Segurança Interna, ele afirmou ter visto homens, mulheres e crianças amontoados em jaulas. "Isso me lembra um pouco um canil, construído com cercas para ciclones", disse Merkley.

A Conferência de Bispos Católicos dos EUA também se manifestou, dizendo que os funcionários americanos têm poder para manter as famílias intactas. "Separar bebês de suas mães não é a resposta e é imoral", disse o cardeal Daniel DiNardo, presidente do grupo. A repreensão do cardeal atraiu a resposta de Sessions, insistindo que a política de separar famílias é necessária para impedir atravessamentos ilegais na fronteira.

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Historicamente, imigrantes sem antecedentes criminais sérios foram libertados da custódia enquanto buscavam asilo ou o status de refugiados. A administração Trump mudou isso, detendo mais pessoas, incluindo as requerentes de asilo.

Legisladores ainda consideram várias ideias para evitar separações familiares, embora não seja garantido que alguma proposta possa obter apoio suficiente e ser aprovada.

Para a deputada Nancy, se os republicanos realmente quiserem lidar com a questão da separação de famílias, podem levar uma proposta de lei ao plenário da Câmara em regime acelerado. Ela acrescentou que não vê nenhuma perspectiva para uma solução legislativa no Congresso, atualmente controlado por republicanos, em ano eleitoral. Ryan, do Winsconsin, disse que a Casa vai votar na próxima semana duas medidas de imigração, mas acrescentou que sua aprovação não é garantida. / AP

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