Cláudia Trevisan / Estadão
Cláudia Trevisan / Estadão

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL, EL PASO, TEXAS, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2018 | 19h16

EL PASO, TEXAS - João Victor passou neste sábado, 30, o primeiro de seus 14 aniversários longe da mãe, dentro de um centro para 1.400 menores imigrantes no Texas, entre os quais é o único a falar português. Além da ansiedade para sair de lá, ele só se queixa do fato de que os novos colegas latinos nunca usam o seu nome. “Como sou o único, todo mundo me chama de ‘brasileiro’”, disse por telefone à mãe, libertada na quarta-feira depois de 25 dias na prisão.

Durante os dez primeiros dias, a mineira Wesliane não tinha ideia do paradeiro do filho. “A agonia de não saber onde ele estava foi pior do que a prisão. Meu cabelo caiu, eu não dormia e chorava”, disse ao Estado na Casa Vides, uma ONG que acolhe imigrantes em El Paso, também no Texas. “Nós víamos na TV o noticiário sobre a separação das famílias e tínhamos medo de ser deportadas sem nossos filhos.”

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Wesliane só conseguiu falar com João Victor ao telefone na quarta-feira, por dez minutos. No dia seguinte, eles voltaram a conversar, em telefonema de meia hora testemunhado pela reportagem. “No começo, eu estava muito tenso, tudo era muito estranho. Agora está melhor. Aqui eu só falo espanhol, aprendi rápido”, disse o adolescente. “Eu como quatro vezes por dia. Aqui tem tudo: videogame, TV, sala de cinema, campo de futebol, campo de basquete, mas estou louco para sair.”

João Victor está no outro extremo no Texas, em Brownsville, que fica a 1.330 quilômetros de El Paso. “Durante o dia eu faço um monte de coisas, mas na hora de dormir eu perco o sono e fico pensando em tudo.” Quando a mãe perguntou se ele queria ficar nos EUA ou voltar ao Brasil, ele respondeu sem hesitação: “Claro que eu quero ficar aqui. Morar nos Estados Unidos é o meu maior sonho”.

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A noite também era o momento mais difícil de Wesliane na prisão. “Quando deitava, eu chorava e ouvia o choro das outras mães.” A maioria de suas companheiras vinha de Guatemala, Honduras e El Salvador, países da América Central mergulhados na violência e na pobreza. “Durante o dia nós conversávamos e víamos televisão, o que ajudava a passar o tempo. À noite, na cela, vinham todas as lembranças ruins.”

Na primeira das duas prisões pelas quais passou, a rotina era especialmente dura: café da manhã às 3 horas, almoço às 10 horas e jantar às 15 horas. “Não podíamos levar comida para as celas. Quem tinha dinheiro podia comprar comida, mas eu não tinha nada.”

Wesliane ainda não sabe quando o filho deixará o centro para menores, mas acredita que não será em menos de três semanas. Libertada com uma tornozeleira eletrônica, ela planeja viajar amanhã para uma cidade próxima de Boston onde estão dois primos e uma prima, com quem vai morar. Os parentes pagarão sua passagem e emprestarão dinheiro para ela bancar a passagem do filho e da assistente social que o acompanhará até seu novo endereço. Para que ele seja solto, os moradores da casa precisarão fornecer suas impressões digitais ao governo. “É uma questão de segurança, para saber se não há ninguém condenado por molestar crianças”, disse João Victor na conversa por telefone com a mãe.

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Os dois saíram juntos de Belo Horizonte em 29 de maio, em direção à Cidade do México. De lá, viajaram 24 horas de ônibus até a fronteira. Wesliane pagou US$ 2.000 pela travessia a um mineiro que vive no México e fez um preço mais baixo porque a conhecia. 

“Sabe quando você não vê futuro? Eu não tinha R$ 1 na minha conta no banco. Eu estava desesperada. Meu filho estudava em uma escola boa, mas em uma área muito perigosa. Eu só pensava no futuro que ele teria”, lembrou. A mineira de 38 anos conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada em 2015, como atendente telefônica do SAMU. Em outubro, perdeu o trabalho e não conseguiu outro. “Eu não tinha casa, não tinha carro e não conseguia mais pagar minhas despesas.”

Wesliane disse que a gota d’água foi o reaparecimento de um namorado violento, com quem havia rompido três anos antes. “Em abril ele me disse que um dia pegaria o João Victor na escola e o levaria para sua casa, para ver se assim eu voltaria para ele. Eu entrei em pânico.”

O dinheiro para a aventura veio da mãe, de uma tia e do ex-marido, que migrou para os EUA quando João Victor tinha 6 meses. Desde então, nunca mais se encontraram. O casamento à distância acabou em 2012 e Wesliane disse que ele tem outra família.

A brasileira havia tentado entrar nos EUA em 2006, sem o filho, mas foi deportada da fronteira. Desta vez, ela esperava ter a mesma experiência de milhares de outros imigrantes que cruzaram com menores nos últimos anos, usando uma tática conhecida como “cai cai”: entrar por uma área não autorizada e entregar-se às autoridades. Sua expectativa era ficar detida com o filho de dois a três dias e sair em liberdade condicional. 

Mas o plano foi afetado pela política de “tolerância zero” de Trump, que decidiu processar criminalmente todos os que entram de maneira irregular nos EUA, mesmo que isso levasse à separação dos adultos de seus filhos menores. “Eu não esperava que isso fosse acontecer. Se soubesse, não teria vindo. Jamais teria colocado meu filho nessa situação.” 

Detidos no dia 2, Wesliane e João Victor foram para um centro da imigração, no qual ficaram em um quarto com outras 14 pessoas, entre crianças e suas mães. Nos interrogatórios, o filho fazia a tradução do inglês para a mãe. Quando não conseguia, o policial usava o Google Translate para se comunicar com Wesliane.

No dia seguinte, um policial disse que ela seria presa e o filho não iria junto. Quando perguntou qual seria o destino de João Victor, o oficial respondeu que não sabia. “Não sei nem descrever o que eu senti. Abracei meu filho e comecei a chorar.”

Uma hora mais tarde, outro policial anunciou que ela teria 15 minutos para se despedir de João Victor, antes de ser transferida. Wesliane usou o tempo para anotar os números de telefone da mãe, que ficou no Brasil, e de todos os parentes que vivem em Massachusetts. “Na primeira oportunidade, você liga para eles”, disse ao filho. “Ele chorava e me perguntava ‘mãe, como vai ser?’. Já me haviam dito que ele iria para um abrigo, mas não me disseram qual”, recordou.

Na quarta-feira, Wesliane foi informada que a ação criminal contra ela havia sido arquivada. Agora, ela responde apenas ao processo de deportação, que pode se arrastar por anos, caso ela consiga um advogado para atuar no seu caso. Juntamente com a tornozeleira, a brasileira recebeu um documento de identificação que permite que ela viaje dentro dos EUA. No dia 11, ela terá de se apresentar às autoridades migratórias da região em que viverá. “Eu gostaria de ficar aqui pelo menos por um tempo.”

 

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‘No começo, me arrependi’, diz imigrante separada do filho nos EUA

Hondurenha viaja durante 15 dias de ônibus e carro até ser presa e separada do filho de 7 anos na fronteira com o México

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL, EL PASO, TEXAS, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2018 | 19h09

EL PASO, TEXAS - Na última vez em que Rosa viu seu marido, estava grávida de seis meses. Antes de presenciar o nascimento de seu primeiro filho, ele imigrou de maneira ilegal para os EUA e passou a viver em Nova York, onde trabalha na cozinha de um restaurante. No fim de maio, a hondurenha e o filho de 7 anos deixaram seu país para se unir a ele. Depois de uma viagem de 15 dias de ônibus e carro, os dois atravessaram a fronteira do México com os EUA e foram pegos pela imigração.

“No começo eu me arrependi e senti culpa por ter trazido meu filho tão pequeno. Fiquei com medo de ele pensar que eu o tinha abandonado. Agora, sei que logo vou estar com ele e meu marido”, disse, em meio ao choro misturado com um sorriso. Mãe aos 18 anos, Rosa agora tem 26. 

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Depois da Guatemala e de El Salvador, Honduras é o país de origem de muitos dos que arriscam a vida na travessia do México para os EUA, sozinhos ou com seus filhos. Em 2014, milhares de crianças e adolescentes da região chegaram ao território americano desacompanhados, fugindo da violência e da pobreza. Milhares de outros fizeram o mesmo trajeto com o pai, a mãe ou ambos.

Na época, a administração Barack Obama passou a prender os adultos e os filhos juntos, por tempo indeterminado. Por um curto prazo, a política reduziu o fluxo de famílias que chegavam à fronteira, mas logo ele voltou a crescer, afirmou Ruben García, fundador de três abrigos para recepção de imigrantes em El Paso. Entre eles, a Casa Vides, para onde Rosa e Wesliane foram depois de serem libertadas.

“Trabalho há 40 anos com imigrantes e nunca vi nada parecido ao que vimos agora: uma política deliberada de retirar crianças de suas mães ou pais”, disse García. Segundo ele, a imigração dos EUA separava famílias havia anos, mas a prática atingia apenas os adultos. “Se chegasse aqui uma família com pai, mãe e filhos de 20, 19, 10 e 8 anos, por exemplo, o pai e os filhos com mais de 18 anos eram presos, enquanto a mãe era liberada com os filhos menores.”

Diante da reação negativa da opinião pública, o presidente Donald Trump anunciou há dez dias o abandono da política de separação de crianças e adolescentes de seus pais. Mas não definiu de maneira clara como ocorreria a reunificação dos que já haviam sido vítimas dessa prática, entre os quais Rosa, Wesliane e seus filhos. 

Do início de maio ao dia 20 de junho, pelo menos 2.300 menores foram enviados a abrigos em diferentes Estados americanos, enquanto seus pais ou mães eram encarcerados em prisões federais.

Até um ano e meio atrás, era raro ver brasileiros entre os imigrantes que chegavam às três casas para imigrantes dirigidas por García. Desde então, eles são cada vez mais comuns. “Muitos chegam com filhos e dizem estar fugindo de dificuldades econômicas.” Uma brasileira que se uniu ao filho depois de nove meses e um pai recém-chegado com o filho estavam na quinta-feira na Casa Anunciação, também dirigida por Garcia, mas não concordaram em dar entrevistas.

Trump disse que acabaria com a separação familiar, mas manteria a política de “tolerância zero”, pela qual todos os adultos que cruzavam a fronteira de maneira ilegal eram processados criminalmente. De acordo com García, isso é impraticável, porque o governo não tem estrutura para manter famílias detidas por longos períodos. “Na semana passada, eles libertaram 400 pessoas, só em El Paso. Nesta semana, serão outros 400.” 

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