Separados pelo protocolo, sírios não trocam olhares

CENÁRIO: Jamil Chade

O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h07

As negociações entre o governo de Bashar Assad e rebeldes que tentam depor o regime sírio fracassaram em Genebra. Fontes que estiveram na sala de reuniões na ONU afirmaram ao Estado que o problema vai muito além da falta de um acordo sobre a agenda ou a transição política. Depois de quase três anos de guerra e 130 mil mortos, as duas delegações não tiveram sequer a coragem de se encarar.

Ontem, o fracasso das negociações foi confirmado oficialmente. Não há previsão para novas reuniões. O enviado especial da ONU e da Liga Àrabe para a Síria, Lakhdar Brahimi pediu desculpas " a todo o povo sírio"

Em Genebra, o que se viu foi o reflexo de uma Síria em decomposição. Segundo diplomatas que acompanharam o processo, em nenhum momento os representantes dos rebeldes e de Assad cruzaram olhares ou falaram diretamente uns aos outros. Os encontros foram sempre mediados pelo argelino Lakhdar Brahimi, que tenta de forma desesperada interromper o conflito. No entanto, ele mesmo admitiu: "O que eu faço? Coloco uma arma na cabeça deles para que eles negociem? O país é deles."

Os bastidores do esforço para trazer à mesa os rivais revelam a dificuldade de se montar um cenário que pudesse criar confiança entre as delegações. O primeiro grande desafio foi escolher uma sala adequada. A ONU e os anfitriões suíços tiveram de sair em busca de um local que tivesse duas portas. Cada acesso seria usado por uma das delegações, mas nenhuma delas poderia ser menor do que a outra.

"Não poderíamos ter uma das delegações entrando por uma porta dos fundos", explicou um diplomata. "Precisávamos evitar elementos que criassem irritação ou servissem de pretexto para uma ou outra parte", disse o embaixador suíço Alexandre Fasel, responsável pela organização do evento.

O arranjo diplomático não terminou aí. A ONU fez de tudo para que, em três semanas, as duas delegações não se cruzassem nos corredores, no café ou no estacionamento. A sala com duas portas iguais, portanto, precisava ficar num local que também tivesse dois acessos separados, elevadores em lados opostos e banheiros diferentes. Outro detalhe importante foi onde as delegações se instalariam. Os dois lados não poderiam se hospedar no mesmo lugar, mas ambos os hotéis teriam de ter o mesmo nível e localizar-se à mesma distância da ONU.

Dentro da sala, a organização foi cuidadosamente pensada. Cada delegação sentou-se em uma mesa. No meio, Brahimi, um dos diplomatas mais experientes da ONU, consciente de que, nos primeiros dias, uma das metas era a permitir que cada delegação "desabafasse". Pessoas que estavam dentro da sala contaram que cada grupo se dirigia diretamente a Brahimi, mesmo quando queria falar com a outra parte. Em três semanas, não houve nenhum diálogo direto.

A oposição não se cansou de declarar que o mero fato de o governo aceitar negociar em Genebra era "o começo do fim do regime de Assad". Mas, nos últimos dias, diante do avanço militar das forças oficiais na Síria e da falta de progresso na Suíça, a sensação era que a vitória foi do regime. No dia 8, o processo foi interrompido por falta de acordo até sobre a agenda das negociações.

Em três semanas, Brahimi afirmou que apenas um acordo foi obtido: o de fazer as duas delegações se levantarem para fazer um minuto de silêncio pelos mortos. "O problema é que cada delegação achava que a homenagem era para seus mártires", disse uma fonte.

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