Separatistas catalães lotam ruas de Barcelona exigindo eleição antecipada

Marcha. Cerca de 100 mil manifestantes protestaram contra o atual comando da região semiautônoma depois que seu governador, Artur Mas, acatou decisão judicial de Madri e cancelou plebiscito previsto para novembro sobre separação do território da Espanha

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2014 | 02h00

Mais de 100 mil manifestantes foram às ruas de Barcelona ontem em um protesto gigantesco convocado por entidades separatistas pró-independência da Catalunha. A manifestação, dessa vez, exigiu que o governo catalão antecipe a realização das eleições parlamentares regionais. Os integrantes da marcha pedem que a votação aconteça em até três meses.

As pressões pela antecipação da votação cresceram depois que governador da região semiautônoma, Artur Mas, decidiu abandonar o projeto de realizar um plebiscito sobre a secessão da Espanha. A consulta popular estava marcada, originalmente, para o dia 9 de novembro.

A decisão de Mas foi anunciada na terça-feira, em resposta à ordem emitida em 29 de setembro pelo Tribunal Constitucional espanhol, que decretou a ilegalidade do plebiscito. Em lugar da votação, o líder regional optou por lançar uma "consulta cidadã", cujo efeito será simbólico e não terá repercussões políticas.

Reação. Insatisfeitos com a liderança de Mas, movimentos separatistas catalães convocaram o protesto de ontem, que teve grande adesão. Carregando as bandeiras amarelas e vermelhas da Catalunha, cartazes e faixas pró-independência, os manifestantes pediam a antecipação das eleições regionais com o objetivo de buscar um novo líder para o movimento secessionista.

Entre as palavras de ordem entoadas pela multidão estavam "Este é o momento" e "Nós estamos prontos", slogans que dão a ideia da urgência com que os manifestantes encaram o tema da independência em relação a Madri.

A ideia de antecipar as eleições regionais também agrada a uma parcela relevante da classe política local.

Membro minoritário da coalizão que governa a Catalunha, o partido Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) diverge da Convergência e União (CiU), comandada por Mas, e quer a realização da votação para a chefia da região o mais rapidamente possível - até porque tem chances concretas de sair vencedor do pleito.

"Presidente (Mas), organize eleições", exortou em discurso Carme Forcadell, diretora da organização Assembleia Nacional Catalã (ANC), um dos grupos independentistas que lutam pela separação da Espanha. "Nós queremos votar em até três meses, queremos um novo Parlamento", reiterou. Ao lado da Omnium Cultural, ANC é a instituição que vem convocando os protestos pela secessão em Barcelona, sempre com elevada participação da população catalã.

Em seu discurso, Carme convocou um novo protesto de massa para a data do plebiscito que não será mais realizado. "Nós converteremos o 9 de novembro em um ato maciço para que o mundo saiba que o Estado espanhol não nos deixa votar", afirmou. "Queremos que o 9 de novembro seja visto como um primeiro turno do plebiscito. Nada nem ninguém impedirá que este país seja independente, se assim quer a maioria de seus cidadãos."

O movimento secessionista na Espanha ganhou muita força ao longo dos últimos dois anos, mas teve um novo e decisivo impulso quando, em setembro, houve a realização do plebiscito na Escócia sobre a permanência do país da Grã-Bretanha - que resultou em vitória dos unionistas, mantendo a situação atual do território.

Artur Mas aproveitou-se da repercussão internacional da iniciativa em Edimburgo para relançar a ideia de um plebiscito na Catalunha. Porém a pressão do governo do primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, que considera o plebiscito inconstitucional, obrigou os líderes regionais a recuarem. Agora, Mas enfrenta também as restrições da parte dos independentistas.

A Catalunha é uma das regiões mais ricas da Espanha e responde, sozinha, por 20% do Produto Interno Bruto (PIB) do país inteiro, situação que impulsiona o sentimento independentista, também marcado pelas diferenças culturais simbolizadas pela língua catalã.

Contraponto. A parcela dos movimentos nacionalistas catalães que não concorda com uma pressão unilateral pela independência foi representada ontem pelas declarações do líder do partido União Democrática da Catalunha (UDC), Josep Antoni Duran Lleida.

Participando de um congresso de jovens do partido, Lleida afirmou que não há qualquer possibilidade de sucesso em uma Catalunha independente se o movimento não for resultado de uma negociação com Madri e a União Europeia.

Segundo o jornal El País, Lleida defendeu a realização do plebiscito em novembro como forma de "expressar o que o país quer para o futuro", mas advertiu que a sobrevivência de uma Catalunha independente não é possível caso haja declaração unilateral de independência.

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