Separatistas da Escócia usam crise como arma

Independentistas apostam em recessão europeia para conquistar votos em referendo de 2014

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 03h03

Todos os sábados, na principal rua turística de Edimburgo - a charmosa High Street - John Hughes é um dos personagens que coloca seu kilt, a tradicional saia, e desfila com sua gaita. Ele garante que, apesar de coletar moedas de turistas que passam pela rua e fazem fotos, seu principal objetivo é o de demonstrar que a cultura escocesa é única e que um país independente precisa ser criado.

"Já temos uma bandeira, um Parlamento e até uma seleção que vai à Copa. Somos um país e apenas Londres insiste em não reconhecer", disse.

Sua campanha, que parecia uma luta isolada de uns poucos, ganhou um aliado inesperado: a recessão que atinge a economia escocesa. Da Escócia à Catalunha, na Espanha, passando pelo País Basco e regiões da Bélgica, grupos separatistas ganharam força com a crise que atravessa a Europa e as feridas que foram reabertas com ela.

Em novembro, os catalães realizarão um referendo popular sobre o assunto, ainda que Madri sustente que a consulta será ilegal. No País Basco, eleições na última semana reforçaram o poder dos partidos que defendem a independência da região. Na Bélgica, o cisma é cada vez mais claro. Mas é mesmo na Escócia que o processo está mais avançado. Há duas semanas, Londres firmou um acordo aceitando a realização de um referendo em 2014 que estabelecerá se a união de 305 anos será dissolvida.

Em praticamente todas essas regiões, o discurso é o mesmo. Além das diferenças culturais, políticos que adotam o tom nacionalista apontam que, independentes, suas regiões estariam vivendo melhor. A Catalunha, mesmo quebrada, insiste que envia mais dinheiro para o governo central em Madri do que recebe. O mesmo alega o Partido Nacionalista Escocês, que estima a diferença entre o que a Escócia manda e o que recebe em quase US$ 4 bilhões.

Seu carismático líder, Alex Salmond, tenta convencer os eleitores de que, sozinha, a Escócia seria mais rica. Para transformar seu movimento em um grupo respeitado, o político usou como plataforma sua oposição aos pacotes de austeridade impostos por Londres e as novas taxas sobre educação e saúde. Com um maior percentual dos lucros do petróleo no Mar do Norte, Salmond estima que a região de pouco mais de 4 milhões de habitantes seria o sexto país mais rico da Europa.

Caso se torne independente, a Escócia ficaria em 90% das reservas de petróleo que hoje são da Grã-Bretanha, com uma renda de até 12 bilhões de libras esterlinas ao ano. Economistas e bancos locais rejeitam o cálculo de que Edimburgo seria a sexta economia mais rica do continente, lembrando que a Escócia hoje recebe por ano um pacote de ajuda de Londres de 30 bilhões de libras esterlinas e teve seu próprio banco, o RBS, salvo pelo Tesouro Britânico.

Moeda. O plano dos separatistas escoceses de que, uma vez fora da Grã-Bretanha, usariam o euro e pediriam adesão à UE, teve de ser reavaliado diante da falta de credibilidade da moeda europeia. Políticos na Espanha, preocupados com seus próprios movimentos separatistas, já alertaram que não apoiariam a entrada automática da Escócia na UE. "Eles teriam de seguir o processo de adesão regular", disse Alejo Vidal-Quadras, vice-presidente do Parlamento Europeu, insinuando que nada estaria garantido.

Salmond foi acusado nesta semana de mentir em uma entrevista ao ser questionado se seu partido havia solicitado conselhos jurídicos da UE sobre uma eventual adesão ao euro. Ele respondeu que sim. Mas, na terça-feira, deputados de seu partido negaram a informação. Salmond cedeu e anunciou há poucos dias que, uma vez independente, a Escócia continuaria a usar a libra e, para manter a indústria financeira no país, garantiu que o Banco da Inglaterra continuaria sendo o regulador do setor, até mesmo da capacidade da Escócia de tomar empréstimos.

Alistair Darling, ex-ministro de Finanças do Partido Trabalhista e hoje líder da campanha contra a independência da Escócia, promete usar essa questão para mostrar que a separação não faz sentido. Para ele, se Salmond quer a independência, mas manter a economia escocesa sob o controle de Londres, os ingleses primeiro precisarão concordar com essa proposta.

Caso contrário, a Escócia apenas passaria a usar a libra de forma unilateral, da mesma forma que a Argentina de Carlos Menem usou o dólar nos anos 90. Não por acaso, o setor financeiro escocês deixou claro que não apoia a independência. Para o consultor Ferrier Pryd, outro fator que pode pesar é a mudança no sistema tributário, o que faria empresas simplesmente se mudarem para Londres.

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