Separatistas liberam acesso parcial a vítimas de voo na Ucrânia

Acesso ao local do acidente é restrito, mas foi liberado após acordo negociado no sábado com o Exército; clima é de insegurança

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL

19 de julho de 2014 | 16h12

GABROVO, UCRÂNIA  - Agentes da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) e investigadores internacionais foram autorizados a ingressar no local da queda do voo MH-17 da companhia aérea Malaysia Airlines no leste da Ucrâniapara analisar as causas do acidente. Um acordo entre tropas do Exército e líderes separatistas foi selado no sábado para a criação de um corredor de segurança que permitirá o início da apuração sobre a queda do Boeing 777.

O pacto vinha sendo negociado por diplomatas da Ucrânia, da Rússia e negociadores da OSCE, mas enfrentava a resistência dos grupos separatistas pró-Rússia armados, que sitiam a região de Grabovo, palco do acidente.

 Ao longo da tarde de sábado, milicianos e voluntários reuniam os corpos situados em campos agrícolas próximos à fronteira russa. Por volta de 16h30, apenas cerca de 140 das 298 vítimas haviam sido encontradas. "Estamos pedindo ajuda dos moradores da região", disse um dos comandantes separatistas, que não quis se identificar. "Eles estão fazendo o melhor que podem." 

A demora na intervenção de autoridades ucranianas e internacionais faz com que quase dois dias após a queda do voo da Malaysia, o cenário em torno dos destroços seja não apenas trágico, mas cada vez mais mórbido. Os corpos, grande parte deles nus, por terem tido suas roupas arrancadas durante a queda, seguem expostos a céu aberto, alguns presos às ferragens, deteriorando-se com a chuva e o sol do verão ucraniano. 

Até o final da tarde de ontem, nenhuma câmara fria havia sido usada na remoção dos cadáveres, que, cobertos com plásticos negros, eram apenas reunidos à margem da estrada local, sob o olhar dos separatistas. Tampouco nenhum trabalho de identificação das vítimas havia começado. Em torno, roupas, pertences pessoais, malas que poderiam ajudar na identificação das vítimas foram revirados por milicianos, curiosos e ladrões. Da mesma forma, os pedaços da aeronave, que caíram em um raio de quilômetros de extensão, podem ser remexidos. Não há nenhum isolamento do local.

“Nós estamos permitindo a chegada dos investigadores, mas também estamos fazendo as nossas investigações”, disse outro dos líderes paramilitares. "Quero expressar as minhas condolências. Isso é uma tragédia. É tudo o que posso dizer."

De acordo com investigações preliminares do governo dos Estados Unidos e da Ucrânia, realizadas a partir de informações de seus serviços secretos e Forças Armadas, o boeing teria sido abatido por um míssil proveniente de áreas ocupadas por milícias armadas e contrárias a Kiev, o que os separatistas negam. Ontem, eram eles quem autorizavam ou negavam o acesso à região em postos de controle  montados ao longo da estrada que liga Donetsk a Luhansk, duas das maiores cidades do leste ucraniano.

A queda do avião deixou 298 mortos, dentre os quais 189 holandeses. O terrível balanço levou o ministro das Relações Exteriores da Holanda, Frans Timmermans, a enviar uma equipe do Escritório Holandês de Segurança Aérea para participar da investigação, mas também essa equipe vinha sendo bloqueada. Um primeiro grupo de agentes da OSCE chegou até o local da tragédia na sexta-feira, mas não pôde avançar nos trabalhos em razão da instabilidade política e militar no leste da Ucrânia.

Em razão do conflito, o país segue dividido em dois, uma maior parte sob o controle das Forças Armadas fieis ao presidente Petro Porochenko, e outra minoritária, junto à fronteira com a Rússia, separatista. A reportagem do Estado percorreu ao longo de 13 horas de automóvel os 1 quilômetros que separam a capital, Kiev, e Donetsk. Ao longo do trajeto, pelo menos oito grandes barreiras foram armadas pelo Exército e também pelos grupos pró-Rússia, que entraram em novos confrontos ontem pelo controle do aeroporto internacional da cidade, parcialmente destruído e fechado há mais de um mês. Passando Donetsk, pelo menos outras barreiras foram montadas, desta vez apenas pelos separatistas.

A presença de diferentes grupos armados torna a região insegura não só para estrangeiros  – observadores internacionais e jornalistas –, mas também para ucranianos. Ontem, Donetsk era uma cidade quase fantasma, comparada à metrópole mais vibrante de todo o leste ucraniano. O comércio estava fechado, poucas pessoas e automóveis circulavam nas ruas. A expectativa de uma ofensiva "antiterror" de parte do Exército ucraniano levou milhares de habitantes a deixarem a região, com medo de combates violentos, como os que ainda acontecem em Lugansk e no Aeroporto de Donesk. 

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