Artur Shvarts/EFE
Artur Shvarts/EFE

Separatistas tomam Parlamento local na Ucrânia e Rússia mobiliza caças

Milícia invade Legislativo da Crimeia, província de maioria russa, e é ovacionada por manifestantes pró-Moscou, enquanto novo premiê de Kiev diz que região ‘sempre’ pertencerá ao país

O Estado de S. Paulo,

27 de fevereiro de 2014 | 08h12

(Atualizada às 23h10) KIEV - Menos de uma semana após a queda do presidente Viktor Yanukovich, a Ucrânia está agora imersa em uma crise separatista alimentada pela revolta de russos étnicos e pela irritação de Moscou com a "ingerência" do Ocidente na ex-república soviética. Na quinta-feira, 27, homens armados e com bandeiras russas tomaram o Parlamento da Crimeia, enquanto caças russos fizeram manobras na fronteira.

Yanukovich estaria em um luxuoso balneário no sul da Rússia e convocou para hoje uma entrevista coletiva. O presidente deposto, aliado do governo de Vladimir Putin, disse em uma nota atribuída a ele, divulgada hoje, que é o legítimo presidente da Ucrânia.

"Fui obrigado a pedir à Rússia que assegure minha segurança pessoal das ações de extremistas", teria afirmado Yanukovich. Ele completou que "está satisfeito no território russo".

Escolhido na quinta-feira como o novo primeiro-ministro interino de Kiev, Arseniy Yatsenyuk afirmou que a Crimeia - única república de maioria russa do país - "sempre foi e será parte da Ucrânia". Em Simferopol, capital da região, milicianos que tomaram o Parlamento ergueram uma faixa em que se lia "Crimeia é Rússia". Eles foram ovacionados por manifestantes em volta do prédio do Legislativo local.

"Esperamos mais de 20 anos por este momento", afirmou à rede BBC um dos manifestantes. "Queremos uma Rússia unida." Aparentemente, os milicianos permaneciam no prédio do Parlamento na quinta-feira à noite e não está claro se fizeram alguma exigência às autoridades.

Yanukovich foi forçado a deixar o poder em Kiev no sábado, após três meses de intensas manifestações e violência nas ruas. O estopim da crise foi a decisão do governo ucraniano de abandonar a aproximação com a União Europeia e, em vez disso, fechar um acordo de adesão a uma zona de livre comércio sob hegemonia da Rússia.

A guinada levou centenas de milhares de pessoas às ruas e aprofundou as divisões entre as comunidades do oeste e do centro do país, historicamente mais próximas da Europa Oriental e Ocidental, e a população do leste e do sul, que é linguística e culturalmente vinculada à Rússia.

Para os vizinhos da Ucrânia, o espectro de um conflito armado de cunho separatista está sendo encarado com forte apreensão. "Conflitos regionais começam dessa forma", disse o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, chamando o confronto de "um jogo muito perigoso".

Na quarta-feira, o governo Putin ordenou a mobilização de 150 mil homens na região de fronteira com a Ucrânia - quase todo o contingente russo no oeste do país - para um "exercício militar" e enviou caças à divisa, em um sinal de sua determinação em não deixar o país passar de vez para a órbita ocidental.

O secretário-geral da Otan, o dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, disse estar "preocupado com os acontecimentos na Crimeia" e exortou a Rússia a "não tomar qualquer iniciativa que acabe por promover uma escalada nas tensões". Recado semelhante foi transmitido pelo secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel. "A Rússia não deve dar nenhum passo que possa ser mal interpretado ou que leve a um erro de cálculo neste delicado momento", advertiu o chefe do Pentágono.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, reafirmou na quinta-feira que Moscou dera garantias de que respeitaria a integridade territorial da Ucrânia. Kerry conversou por telefone com o chanceler russo, Sergei Lavrov.

Nikolai Valuev, boxeador campeão mundial peso-pesado em 1999, chegou à Crimeia, para "ajudar a resistência". Valuev, de 40 anos, é deputado em Moscou - a versão russa do boxeador Vitali Klitschko, líder opositor ucraniano.

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