Abed Al-Hashlamoun/Efe
Abed Al-Hashlamoun/Efe

'Sequestro de aviões deu voz a palestinos'

Membro da Frente pela Libertação da Palestina defende governo de união com Fatah e Hamas

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2011 | 03h01

Leila Khaled desce as escadas em um vestido justo de listras, senta-se à mesa e acende um cigarro. Antes da entrevista, pede à amiga brasileira que traga do supermercado cerveja e duas garrafas de vinho, branco e tinto. "Seco, por favor", pede, ao lado do segurança particular, essa palestina de 64 anos, cuja foto com uma AK-47 em punho rodou o mundo em 1969 após ser presa por sequestrar um Boeing 707 para chamar a atenção do mundo à sua causa.

"Não é religiosa?" Ela mexe a cabeça negativamente. "Quem quer um Estado religioso é Israel", diz Leila, membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) no Conselho Nacional Palestino (Parlamento). Ela está no Brasil para a criação de um comitê em solidariedade aos palestinos e amanhã fala em evento do Icárabe, no Instituto Cervantes, ao lado de três conterrâneos de linhas diferentes.

O FPLP de Leila diverge do moderado Fatah, no comando da Cisjordânia, e é acusado de promover atentados contra Israel, o que ela não nega. Defende o fim da disputa entre palestinos e um governo de união do Hamas e do Fatah, que se reconciliaram recentemente. Os grupos se reunião no dia 18, no Cairo, para decidir sobre novas eleições palestinas (mais informações na página A16).

Leila diz que aceitará a decisão de maioria, mas não rejeita a luta armada. "Vinte anos de conversa não nos levaram a nada. A Carta da ONU prevê como direito de um povo resistir à ocupação, que é em si um ato terrorista", defende. "Os palestinos lutam contra sua expulsão, prisões arbitrárias, o bloqueio de Gaza, ofensivas que mataram milhares sem que Israel fosse punido e pelo direito de ir e vir, cerceado por soldados que decidem quando abrir os portões", ela fala, sem respirar. "Por que acha que o povo palestino deveria suportar tudo isso sem reagir?"

Em seu tom de voz há toda a carga dos violentos conflitos que assolam a região desde 1948, quando meio milhão de palestinos fugiram da Guerra Árabe-Israelense, entre eles, seus pais. Ela tinha 4 anos. "Israel sufocou o povo palestino. E o que você faz quando está sufocando? Você usa até as unhas!" Ao sequestrar o avião que ia de Roma a Atenas e desviá-lo para Damasco, na Síria, ela exigiu que o piloto sobrevoasse Haifa, sua terra natal. Não houve feridos. "Sequestramos, sim, e o mundo passou a nos ouvir". Ela fez seis cirurgias plásticas e no ano seguinte participou de novo sequestro. Foi presa em Londres e libertada numa troca de prisioneiros.

Leila vive na Jordânia e defende o direito de retorno - um dos principais impasses à paz. "Israel convoca judeus de todo o mundo a retornar às suas terras, por que não os palestinos?" Ela sabe que isso inviabilizaria o Estado de Israel, que teria maioria árabe. "Defendo um Estado laico em que judeus e muçulmanos possam conviver."

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