Seqüestro em massa provoca racha no governo iraquiano

O seqüestro em massa ocorrido nesta terça-feira em Bagdá fez o crescente problema da violência sectária atingir - e rachar - o governo iraquiano. Enquanto um ministro se afastou do cargo por afirmar que há ainda 70 a 80 reféns, um porta-voz do governo afirmou que no máximo cinco pessoas ainda estão em poder dos seqüestradores. Na terça-feira, cerca de 80 homens armados invadiram a sede do Ministério da Educação Superior, em Karrada, no centro de Bagdá, e capturaram dezenas de homens. O grupo vestia uniformes das forças do Ministério do Interior, levantando a suspeita de que a polícia estaria envolvida. Poucas horas depois do crime, cinco policiais foram presos para testemunhar o porquê de não ter havido nenhuma resistência contra os seqüestradores. O ministro da Educação Superior, Abed Theyab, pediu afastamento até que "os reféns sejam libertados". Segundo ele, há até 80 pessoas ainda nas mãos dos seqüestradores, provavelmente presas em distritos liderados por milícias xiitas. "Se eu não posso salvar e proteger a vida das pessoas no meu ministério - sejam elas professores, funcionários ou estudantes - não há nenhuma razão para que eu permaneça no cargo", disse Theyab. Um porta-voz do governo, Ali al-Dabbagh, afirmou, no entanto, que entre duas e cinco pessoas ainda são mantidas como reféns. Segundo o governo, cerca de 40 pessoas foram seqüestradas no total, contrariando a informação do ministro de que mais de 100 pessoas haviam sido capturadas. Conflitos étnicos Pelo menos uma informação, entretanto, é dada como certa tanto pelo governo como pelo Ministério: a ação foi motivada por conflitos étnicos. A primeira indicação disso é o depoimento de testemunhas afirmando que os seqüestradores checaram os documentos dos reféns e levaram apenas os sunitas. Além disso, há o fato de Theyab ser sunita e o Ministério do Interior - acusado de envolvimento - ser xiita. O próprio governo confirmou a motivação do crime. "O objetivo dos seqüestradores era fomentar a tensão sectária e quebrar a estabilidade entre sunitas e xiitas", declarou o porta-voz do governo. Na terça-feira, o primeiro-ministro Nuri al-Maliki já havia declarado que o seqüestro "era resultado do conflito entre milícias pertencentes a lados diferentes". Ele prometeu manter as universidades abertas e livres de ataques sectários e também disse que o objetivo agora é "prender e punir os responsáveis pelo seqüestro". Integrantes de quatro famílias - todas sunitas - deram entrevistas, dizendo que ainda não tiveram notícias de seus parentes, que trabalhavam no Ministério da Educação. Ainda hoje, um grupo armado seqüestrou três funcionários de uma agência governamental responsável pelas mesquitas sunitas no Iraque. Um policial, que não quis se identificar, disse que eles foram capturados quando saíam do trabalho por uma milícia armada, no bairro de Sabaa Abakar, no norte da capital - indicando que o crime pode ser mais um caso de violência sectária. Em julho, 20 funcionários da mesma instituição foram seqüestrados e até o momento não foram encontrados. Em Diwaniya, a 180 km de Bagdá, 12 empregados de uma fábrica foram seqüestrados. Pelos menos 30 pessoas morreram no Iraque nas últimas 24 horas, incluindo seis soldados dos EUA.

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